quinta-feira, 14 de março de 2024

touche-à-tout

(para Ivan)


touche-à-tout

a gula vadia que atiça cada lâmina de pele

escorridas para fora

das membranas dos meus dedos

para a extensão infinita do tudo 

fizeram de mim um especialista em nada

meus acertos se tornaram paisagem

meus atropelamentos colagem

meus abandonos asco

começo e recomeço o pouco

que a cada dia me concerne

sou asa pra quem me usa

pouso pra quem me fere

e ainda voo

e ainda voo

e ainda vazo dessa merda

e mando todo mundo se foder 

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

deve-se começar um poema com calma
e ódio

como quem domina o assunto
e é por ele dominado

e já atravessou esfinges
e mascou tijolos
e afiou os dentes
e sobreviveu a infinitas entrevistas de emprego

e

alguém te olha

e te continua
poema

alguém te avança

e te dança
poema

alguém te rasga

e te engasga
poema

o poema-bailarino
corta o dia
como um liquidificador aberto
sofre ele de terremotos
pequenas mortes
e grand-pliés
parte da diferença de voltagem
para voltear
todo oco e margem
colhendo no bico
o que não cabe nos olhos

e se cansa mais
cedo do que tarde

e foge enfim o poema-ave

raro e grave
trinando infinito
acima e adentro
de quem furioso e calmo
o sussurava a grito

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

domingo, 9 de agosto de 2015

permanência

as ligas de metal
os nomes das fábricas
a lâmina da  faca
que se quebra

tudo

meu filho
meu colisor de partículas
meu acaso genético
meu encontro

tudo envelhece

minha pele
meu pulmão
meu sorriso
envelhecem

todos

o nada
é para sempre

domingo, 12 de julho de 2015

como por exemplo
aquelas que rumam ao oco
atrás das moitas                                                                                            
as mais afoitas
são o
mundo
dançando
a valsa iluminada do potlatch

toda poeira é um pedaço de bicho
um pedaço de guerra
um pedaço de núvem
que se contorce em máquina
que se entorta e entrecorta
a tessitura dos dias
são restos de sonhos
e descontroles

quando amanhece sono
quando entardece a rua
quando anoitece acendo

meus olhos têm a cor do fogo
como brilhantes de pólvora
meu corpo é feito de canários
e do sorriso de Isabel

terça-feira, 30 de junho de 2015

Com Joaquim na rede

de ponta cabeça descubro
a musculatura do dia
tem a cor do teu sorriso
e que em teus olhos passeiam
núvens
e cometas resmungando
azul azul azul
tão táctil
o ranger do éter
no fotograma
nos véus e cílios
que rompem e despontam e entendes
espantado:
andamos cheios
de amor

segunda-feira, 30 de junho de 2014

memo1

era ainda o cheiro de pitanga,
cachorros e demais confetes
esquecidos na terra
nas pedras
das serra
das minas gerais
onde banho nenhum vence frio
e toda madeira queimada
não é mais que o prazer
de ver na fogueira a banguela exposta
do fogo e sua presença inútil

sabíamos de antemão
estar a solução do gelo
entre o último gole no teu copo
e o momento em que te colocaria de quatro
para lamber teu grelo
e te comer
e te comer
e te comer até
prenha de brasa
a manhã ser