terça-feira, 29 de outubro de 2013

estou a uma miragem da loucura

x

homens originais,
sois frutos de minhas pilhagens
minha medicina
é a ancestral resina que escorre
de suas bocas
e minha

x

o desequilíbrio . a vertigem . a paravirtuose . as impossibilidades da montanha. as manhas do intangível . os vírus . as incompetências dos dentes. a falta de caninos e esmalte. a latência do espírito anti-burguês . a radicalidade do lumpen libertário . do nobre libertário . a cristalinidade dos picos . a brutal clareza dos cegos . o vil infinito! o vil infinito! o vil infinito! . rimbaud lautreamont barros gullar . os velhos andarilhos . os urubus cosmopolitas . meus ossos . minha herança . minhas roupas . minha herança . o que sobrar no esquecido . no apagado . no soterrado . minha herança . minha carcaça e grito. o vil vil vil infinito!

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

sta

a gravidade de um gafanhoto
chega a manchar uma tarde
                    inteira,
maculando os relógios
             e a respiração dos calendários

como se diante de um gafanhoto
          nem a comida sobre a mesa
          nem as cadeiras e lâmpadas
          nem as costuras das almofadas
          nada
tivesse importância

como se na presença de um gafanhoto
ficasse todo um jardim
atravessado por carcaças
                de tanques
                de guerra

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Bebeto

Na varanda velha
de uma casa velha
da velha velha Diamantina
Bebeto fuma meus cigarros

diz ser caçador de pedras
se mete nos jardins
dos outros,
conversa por buracos

guarda segredos sob as unhas
cui - da - do - sa - men - te
como quem ama um passarinho

Bebeto percebe o que sou de errático:
estou caindo
eternamente
pro futuro e pra origem

"Eis o pior tipo de suicidas
aquele que levanta despenhadeiros
pra testar seu desequilíbrio"
assim diz Bebeto

aprendo com ele que
escrever é escavar,
motivo dos meus dedos sujos

há uma latência de coma e absolvição
nascendo dos jardins,
uma ameaça de espanto

há uma cratera ao redor dos poetas,
um anti-pasto
de silêncio e fúria,

por isso os meus dedos
sujos

domingo, 20 de outubro de 2013

o gato.

O gato no muro,
retrátil

há na linha do gato,
na curvatura de sua espinha,
a bruta mão do escuro

dois dedos de silêncio jogam jogos
de advinha, do ali futuro, do breve,
decidem os dedos

enquanto a curva do gato machuca de luz
o horizonte do muro
e tudo é prenúncio de túnicas e saias

nas costas do gato
está arqueada a coluna original
da anunciação

o gato está grávido para antes
grávido de promessas de ilhas
de messias submersos - como a linha dura do balão é ar e incêndio, arquitetura -

como um homem contém
um Homem e contém um Gato
quando se recolhe de trapos
e curvado espreita
o beijo antes do beijo,
com línguas de espera
e um mar de suspeita