adeus, tereza
adeus
adeus esse esmalte vermelho
essa mancha de acetona
na beirada velha
de madeira velha
da nossa cama velha
adeus
e adeus seus dedos de comer
seus dedos de pedir silêncio
seus dedos de mostrar
mostrar tereza quando eu não quero mais
não, tereza.
guarda os dedos
as unhas
a pele encruada na trama do lençol
os fios de cabelo
o cheiro das calcinhas
sua vontade irrefreável de comer bonbons e vinhos e tardes e
de comer tereza
comer eu
nossas vontades nesse
come-come
que acabou em mim, tereza,
ajuntando buraco demais
por isso adeus
adeus seus olhos pequenos
adeus sua saliva
adeus sua virilha quente onde guardava minha mão
seus pulinhos
suas juras
sua bunda
adeus sua bunda, tereza
e tudo o mais que o humano jamais chegará a entender
e adora e ama e crê por falta de caminho
como a chuva num domingo inútil
ou um passarinho que dá cambalhotas para pegar migalhas do sol
que de tão cansado se espasma no chão
ou como a poesia
que me encontra aqui, tereza,
emparelhado na cama
cutucando com a unha
as manchas do teu passado
eu o corpo curvado
eu boiando no ar
eu nos teus cheiros
zonzo de tanta cambalhota
por migalha
pouca
sábado, 10 de novembro de 2012
domingo, 4 de novembro de 2012
Faxina
ajuntamentos de olho fechado
ouçam bem o que
esqueço e espero e espasmo
escorram da carcaça que enferruja
num ferro-velho qualquer
entre ratos e fins-de-fresta
rumem sentido nos calcanhares alinhados
um dois um dois um dois
eu daqui me monto
num rabo de tritão
e afundo o que restar de ilha
abrandarei oceanos
em baldes de orvalho azul
trouxas de calcinhas apodrecidas
retratos de fungos
latas de sardinha troncos de musgo manhãs recém-nascidas
e todo o ferramentário
tudo
tudo
preciso ao faxinar do mundo
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