sábado, 14 de setembro de 2013

Ando com desfonemas na cabeça. Cada coisa que penso ou faço ou caminho me constrói de silêncio. Sou uma imensa borracha. Ou não. Menos que borracha. Passeio de tintas na minha cabeça. Estou congestionado de branco. Um branco viscoso, que não pega. Subsiste absoluta a parede por trás. Ranhuras, gravuras, agruras, histórias. Absoluto é o inevitável? A tinta escorre e o que persiste: existe. Mais hora menos hora e eis o colapso. Cai uma carta, molha-se a pista, inclina-se o olhar e. O baque é início e término. Dá vida e tira. Sempre no choque ou no inesperado. Acorda-se uma manhã e vê o corpo desgovernado. Ou antes: outro tomando o controle do que era inerente. E o inerente passa ao reino da falibilidade, como as coisas todas (viver é falhar, mas há doçura aí). Talvez o próprio corpo se autogoverne. Ou o imperativo da vida. E assim acorda de manhã e vai dar com as janelas. Não pensa nem titubeia. Acorda e beija o sol. Dá bom dia ao que é belo. Acorda de luzes. Descola a placa espessa da tinta como a gordura de algum animal de olhos tristes. Dá forma aos ossos. Confirma com alegria que amar é cristalino e isso é coisa que o reino das falhas deseja, mas não toma. Eis o colapso. Ou ainda: a ruptura. Nascer e morrer é um atravessar de fendas. Um velar e desvelar de línguas. É um prédio que cai - e levanta cidades.