Sonhei de você uma anti-poesia. Me fazia pelo menos vinte instruções de como crescer verdadeiramente, rearranjar nos mapas o meu amor feito um carregador de balões de hélio. Te confesso que ri, ainda mais quando supôs que eu estaria amassando os papéis "a essas palavras amassadas junta o resto todo, tudo o que aqui vai são Hiroshimas e convencimento". Mas logo eu? Li Nietszche aos quinze, caminhei e caminho rente a paredões de pedra de quatrocentos metros, serpenteio nas bordas dos meus olhos e quase, quase caio em mim. Me equilibro nos sorrisos que mastigo, nos verbos que me recontam. Mas ri ainda mais porque noventa porcento do alemão é pura besteira juvenil. Percebi então suas pernas se movimentando, o espírito tentando o parto, suas mãos rompendo a placenta do mundo. Te olhei do outro canto do labirinto (talvez mais perto do centro, talvez mais perto da saída) e quis te beijar os olhos e os calcanhares. Te vi mudada, me negando, mas, na minha mórbida crença de beleza ascendente, te vi melhor e mais próxima.
Ri outra vez e, entre pedra e água, te invejei: nunca consegui fazer um troço daqueles. Mas acordei em outra cidade e você calada num álbum de retratos tentava nascer as palavras que te engravidei, feito um aborígene lecionando genética. E Hiroshima afundava.