segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

a bomba

vago
desvago
descubro o que é ainda sombra
silêncio
escuto
escuta
eclodiram em mim os ovos
de uma guerra civil
sou todo baionetas
e avanços e recuos
reconta o calor dos corpos
só deles trato
e destrato - os renascidos -
cá dentro
há um reino
em brasas
pronto pra marcar os homens
à altura do peito
estou doente de força
fraco de força
desmoronado inteiro de força
como um elefante de guerra
que ama
doidamente
doída-mente
as flores que pisoteia
enquanto passa
e trança
traça
destraça
nega!
destroça
as iluminuras artificiais
nega!
estraçalha
nega!
o negro falso dessa noite eterna
em que nos enfiaram

no meu coração
espreitam insones
cem mil milhões
de gigatons
canta a lua
aos quatro cantos
           da rua
"atrás dessa cortina
    dorme uma mulher
                 nua
atrás dessa cortina dorme
          uma mulher
                 nua
atrás dessa cortina dorme uma
              mulher
                 nua"


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

            SOL SOL SOL
            te levanta!
  dançam pra ti todas as partículas
            e insetos no ar
       todas as moléculas num
              frenesi
                          desvairado
             querendo a ti
                só
a ti presentear a euforia da descoberta:
                SOL,
                o amor brilha!

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

agora parece dos dias tomarem
essa textura de
fúria
e suor
como se donas de casas
              porteiros
              marginais
              poetas
              débeis mentais
ganhassem de súbito
uma capacidade desmedida de
nascer do sol
uma flor intacta
de luz
e barbárie
como se todos os cães
todos os brutos
todos os sujos
de repente se levantassem do chão
das margens da avenida brasil
dos cubículos divididos com ratos
nas zonas podres do rio de janeiro
vomitada pelas frestas das ruínas
a humanidade inteira
como se o verde violento das árvores
exigisse trombas d'águas
dilúvios
uma tsunami
uma chernobyl
uma cólera

chega
como uma doença
chega
como um exército
de loucos
o verão

domingo, 8 de dezembro de 2013

Espero dos meus irmãos de tempo não menos que o extraordinário. Essa latência Raskolnikoviana, essa urgência profética de ser o que Vem no Hoje. Porque não. Não, Onneti, o extraordinário não se perde por mais que seja característica pouco democrática, é certo, mas o espanto é matéria explosiva e o que fazemos é tão somente correr o pavio. Lambidos de fogo. Restando no mundo em carvão e petróleo e lendas. Sendo, sendo, sendo até queimar. Até chegarmos no inevitável.
Saber a morte é a maior invenção do homem. É sua poética definitiva. Sua potência. Não há deus que não tenha nascido da morte. Nosso sagrado é essa constante de sermos corpos presentes carregados de tempos outros. Dentre eles o impossível de onde viemos e para onde vamos. Esse jogo hermético de brotar do acaso, no meio da vastidão dos corpos, pra sermos lançados na imensidão do não-corpo. Porque o fim do navegante não é a terra, mas aquilo que nele enferruja entre a superfície e o submerso. Essa dialética de visitarmos o inverso enquanto indivíduos presentes. O habitat. Realidade imediata de nome de cotidiano. Ou tempo. Solidão. Esse espaço de entendimento entre asnos e jegues que se olham perdidos no caminho. Exaustos. Mas se olham e se compreendem em sua ignorância.
E apesar de tudo o fogo segue premente. Ou mais. Arde mais, Onetti. O fogo nos consome a todos na inevitabilidade de sermos atores da língua, da formação da consciência, senhores de um pedaço amorfo de terra que ora se expande ora se contrai e que dia mais, dia menos, ruirá. E ainda assim erguemos castelos de gelo!
Não me interessam os homens que se separam entre joio e trigo. Esses sim, Onetti, não estão preparados para a explosão final, pras toneladas de hiroshimas que carregamos no peito e nos lábios. Mas não meus irmãos de tempo. Eles redescobriram o fogo. Elas. Queimam-se agora como coquetéis molotov à espera da quebra, do espalhar-se em chamas. Já vivenciamos a morte. Chegou a hora de outra poética. Nossa missão é queimar a língua do mundo. Queimar a língua do mundo, Onetti!!

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

pequena do 6º andar

pequena
que carrega verbo e tinta
debaixo do braço
como quem guarda o mundo
o mais pertinho
o mais dentrinho do peito -
                              ou do baú de tesouros
                              que guardamos dentro do peito -
ver-te crescendo
germinando
ramalhetecendo, pequena,
nessas dualidades nossas
tão nossas
tão imensas, pequena
é ser-te, pequena

e o maior mesmo
é escolher o que de ti é mundo
a tua porção mais trágica
não essa versão de mares impossíveis
mas aquela que você sabidamente chamou de
                                     dançarina monstro
mesmo tendo tu separado tuas formas por uma
linha
fininha fininha
de quase o caderno não dar bola
eu ainda
muito cruel ainda
e muito sem maldade, pequena
te neguei o oceâno

ainda

escolhia o universo
           três mil vezes
           o universo,
           pequena,
não os mares
porque o Atlântico dói
e sereia, se canta,
também sereia se engasga
enquanto esses pés, pequena trágica,
essa condição de sermos bailarinos,
monstros de sapatilhas,
permite sapatear no mundo
o mundo
o mundo inteiro
furiosamente
do escuro do teu 6º andar
até ao amor

pequena,
se pudesse te dizer
que até o amor
existe
e principalmente
existe o amor pra cima
                     - pra cima! -
então esse elevador jamais chegaria
onde você pra sempre
saiu
e nem eu me afogaria
nesse resto de água
onde minha língua
como um rabo de peixe
se retorce -
mítico monstro encalhado -
esperando desesperadamente
o dilúvio

sábado, 30 de novembro de 2013

sassamidices

caibo no que me percebo
não só nos ossos
e arcada dentária
mas nessa supercategoria identitária
que se veste por capricho
                 e saudades de
  nomes
        doenças
                 navios enferrujados

    e além
    me percebe
    quem me
          transcende

          e   i   s
              :
    s u p e r p o t ê n c i a

de desejo e movimento
          e luz
          de onde venho
                         e desapareço
          como desaparecem as lagartixas
          por entre as telhas e fendas da parede
          por entre os desvios da casa
                             e do sono
          como se a cada vão descoberto
          chegasse
          cada vez mais
               perto
               perto
               certo
               certo de que sou
           desperto quando e somente quando

o amor

           desperta

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

contingente:
encontro de rios,
destacamento de retinas
                                                                   æ
                                                                 MAR
                                                           HæRMæTæco!
pasto
semeado de
ocêanos
                                                                  æ
                                                                terno!
: o mundo
atravessado
brilha em brasa
em fúria
                                                                  æ!
                                                              menina,
                                                        amor amor amor
                                                                  æ
                                                            hiroshima!

sábado, 23 de novembro de 2013

sta minguante

    mais marca a terra
   o peso do gafanhoto
 que um tanque de guerra

dos caminhos zen: a lavra. fazer da materialidade da língua (lamber o que dela é água - maciça ou míngua) o tao, o , a estrada do lume, o estrume, perfume bash-barr-tolst-bud-franciscano. andar sem beira e verborrar no chão do chão palavra - ser do meio ceia. dos caminhos zen: a lavra.

51º bashô brasileiro

Furu ike ya
Kawasu tobikomu
Mizu no oto

       Bashô

O mestre buscou do santo a (con)sisudez. Paulo, discípulo contemporâneo (em carne) nosso e (em brilho) de Bashô, manteve o simples enquanto matéria fundamental. Prevalece aí a imagem prenhe de significados:

    Velha lagoa
O    sapo    salta
    o som da água

        Leminski


Mas falta. Algo falta. Algos. Uma multiplicidade mais declarada falta. Como trazer as infinitudes simbólicas do extremo oriente, terra de filósofos-terra e arte-zen-ato, para a dura retitude ocidental? Nem deus podemos mais de um. E lá tudo é a junção de três em mais. Lá um é muitos.

o velho é também dureza, cristal do tempo, quebranto estático.
o lago é poça e forma.
a rã: um inseto barulhento.
o voar é, não só o ato, mas o trespassar-se em coisas, o penetrar, enfiar-se no.
ruido: o impedimento de palavra e boca.

por mestre o segundo, mas buscando no redor o que o primeiro olhou-ouviu-iluminou, tento :


    velhadura de lago
uma râ        transvôa
    boca d'água, chiado

        Galva


O duro do já-dado é atravessado pelo acaso. Por um momento abriu-se a boca do mundo. Chiou-se o tempo. Chiamos todos.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

janeiro

janeiro, 2014, margens convulsas da roma carioca:

faz-se extremamente necessário usar o sol
de camisa
de forceps
como uma veste que protege do frio
                           de dentro
feito um bombardeio em um bairro isolado
                    na coreia, no zimbábue, no japão,
                    na nação bantu, no complexo do alemão
                    no último canto das casas das mães
                    de todas as canções
                    destroçadas pela força bruta
                    da ignorância da ignominia
                    do mal do mal do maligno do mal signo
como uma chuva de napalm
na altura do peito
por entre as costelas e os ligamentos
de gordura e gelatina
por entre os espaços
e por entre o vazio dos espaços
é preciso ter por facho
um calor de bicho
e água
é preciso a mágoa cheirar a carne curtida
e ter por fim por muito por lida
brutalmente inaugurado
o verão
ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser ser

SER

TÃO

até queimar

terça-feira, 5 de novembro de 2013

terça-feira, 29 de outubro de 2013

estou a uma miragem da loucura

x

homens originais,
sois frutos de minhas pilhagens
minha medicina
é a ancestral resina que escorre
de suas bocas
e minha

x

o desequilíbrio . a vertigem . a paravirtuose . as impossibilidades da montanha. as manhas do intangível . os vírus . as incompetências dos dentes. a falta de caninos e esmalte. a latência do espírito anti-burguês . a radicalidade do lumpen libertário . do nobre libertário . a cristalinidade dos picos . a brutal clareza dos cegos . o vil infinito! o vil infinito! o vil infinito! . rimbaud lautreamont barros gullar . os velhos andarilhos . os urubus cosmopolitas . meus ossos . minha herança . minhas roupas . minha herança . o que sobrar no esquecido . no apagado . no soterrado . minha herança . minha carcaça e grito. o vil vil vil infinito!

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

sta

a gravidade de um gafanhoto
chega a manchar uma tarde
                    inteira,
maculando os relógios
             e a respiração dos calendários

como se diante de um gafanhoto
          nem a comida sobre a mesa
          nem as cadeiras e lâmpadas
          nem as costuras das almofadas
          nada
tivesse importância

como se na presença de um gafanhoto
ficasse todo um jardim
atravessado por carcaças
                de tanques
                de guerra

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Bebeto

Na varanda velha
de uma casa velha
da velha velha Diamantina
Bebeto fuma meus cigarros

diz ser caçador de pedras
se mete nos jardins
dos outros,
conversa por buracos

guarda segredos sob as unhas
cui - da - do - sa - men - te
como quem ama um passarinho

Bebeto percebe o que sou de errático:
estou caindo
eternamente
pro futuro e pra origem

"Eis o pior tipo de suicidas
aquele que levanta despenhadeiros
pra testar seu desequilíbrio"
assim diz Bebeto

aprendo com ele que
escrever é escavar,
motivo dos meus dedos sujos

há uma latência de coma e absolvição
nascendo dos jardins,
uma ameaça de espanto

há uma cratera ao redor dos poetas,
um anti-pasto
de silêncio e fúria,

por isso os meus dedos
sujos

domingo, 20 de outubro de 2013

o gato.

O gato no muro,
retrátil

há na linha do gato,
na curvatura de sua espinha,
a bruta mão do escuro

dois dedos de silêncio jogam jogos
de advinha, do ali futuro, do breve,
decidem os dedos

enquanto a curva do gato machuca de luz
o horizonte do muro
e tudo é prenúncio de túnicas e saias

nas costas do gato
está arqueada a coluna original
da anunciação

o gato está grávido para antes
grávido de promessas de ilhas
de messias submersos - como a linha dura do balão é ar e incêndio, arquitetura -

como um homem contém
um Homem e contém um Gato
quando se recolhe de trapos
e curvado espreita
o beijo antes do beijo,
com línguas de espera
e um mar de suspeita

sábado, 14 de setembro de 2013

Ando com desfonemas na cabeça. Cada coisa que penso ou faço ou caminho me constrói de silêncio. Sou uma imensa borracha. Ou não. Menos que borracha. Passeio de tintas na minha cabeça. Estou congestionado de branco. Um branco viscoso, que não pega. Subsiste absoluta a parede por trás. Ranhuras, gravuras, agruras, histórias. Absoluto é o inevitável? A tinta escorre e o que persiste: existe. Mais hora menos hora e eis o colapso. Cai uma carta, molha-se a pista, inclina-se o olhar e. O baque é início e término. Dá vida e tira. Sempre no choque ou no inesperado. Acorda-se uma manhã e vê o corpo desgovernado. Ou antes: outro tomando o controle do que era inerente. E o inerente passa ao reino da falibilidade, como as coisas todas (viver é falhar, mas há doçura aí). Talvez o próprio corpo se autogoverne. Ou o imperativo da vida. E assim acorda de manhã e vai dar com as janelas. Não pensa nem titubeia. Acorda e beija o sol. Dá bom dia ao que é belo. Acorda de luzes. Descola a placa espessa da tinta como a gordura de algum animal de olhos tristes. Dá forma aos ossos. Confirma com alegria que amar é cristalino e isso é coisa que o reino das falhas deseja, mas não toma. Eis o colapso. Ou ainda: a ruptura. Nascer e morrer é um atravessar de fendas. Um velar e desvelar de línguas. É um prédio que cai - e levanta cidades.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

sou grande em ser ínfimo
só posso colosso mínimo (broto pra origem):
um inventímido

domingo, 2 de junho de 2013

.......

escrevo das coisas do sem-nome
para isso uso de
avenidas rasgames talhuras
escaras
escuros
furos
furos
que por azar encontro
na barriga das palavras

-

todo poeta nasce de um escrúpulo a menos. é da pálpebra a culpa do não-receio. tanto que acaba escorrendo o silêncio-adubo. inevitável. eis pois a revertebra dos adoecidos de língua, o que reverbera a mudez verborrágica.
readubo: pelo rasgado da boca e dos olhos. tanta coisa sobra e  foge, fode. digo muito e vazo e vagazo:

o que busco é esquecimento
no molhado das pedras
no abandonado das roupas
no crescido do nada

estou atravessado de palavras. poesia em mim é uma questão de princípios, não escrúpulos: o humano sensível (aquele que é quase trapo e é nisso graduado) há de ter um cachorro arregaçado de dentes dentro do corpo.

mas qual verbocoisa há de ser cio no vazio que umbigaram na gente?
hein????

-


poesia é o que nasce
das vergonhas
das palavras

domingo, 26 de maio de 2013

..

me tormentas
ternuras
e molemente sou
- estar água é amar? -
me afogas
de dedos
demolho muito
- sou crescido de mares
mas só deságuo por doçumes -
ribeira em mim labirintifica
se teus sagrados
me pantaneiam
-
guardei um segredo no molhado:
ando em fins
de oceano


sábado, 25 de maio de 2013

sexta-feira, 24 de maio de 2013

todo poeta nasce de um estupro

ali no miolinho das folhas
desabrochava o vermelho
o verde maduro
e aquele fedor
de balões e estouros no céu de junho
tanto amarelo escorrendo
mudo
em tudo
nas mãos sujas
nas casas abandonadas
na ferrugem do portão
por entre meus cabelos
- escondia-se do azul
eterno?
desaguava em mim
enfim? -
o papel manchado
de línguas
flores
falares
- pode a palavra
palavra afogar? -
o mundo lubrificado
e eu penetrava
- ou ocaso era o verbo? -
eu acaso
me atravessava?

terça-feira, 7 de maio de 2013

o velho escondia no bolso
a orelha de van gogh
maneira que
cheirava a aquarelas
tinha um fedor de azul
tão forte de azul
tão estragado de azul
que mal podia ouvir o sol
coado nas folhas as tralhas
a solidez do sal, cristal
os insetos trepando no seu ombro pincelado de passarinhos
ou a boca desabrochada - buraco encharcado de silêncio -
bastava esse pouco
esse nada
que o bolso do velho
molhava

quinta-feira, 2 de maio de 2013

ex-preguiça

entretanto
a água passa

depois de esquecido o amor
no cesto de roupas sujas
nas fendas do assoalho
nas esquinas dos móveis

depois dos dedos contados
e recontados
num levantamento centopéico
das marcações
no couro

depois de trocado o ouro
por cachos de bananas
ou quinquilharias
nas trilhas finais das feiras
que é onde o resto floresce e aguarda

depois de dobrada a farda
e ferrada a fera
a água passa

e o campo
entre tantos
espreguiça
a primavera

terça-feira, 30 de abril de 2013

escravação


a pele -
          ser antro de histórias -
há de ser a pele
lesmas línguas
          - que é no molhado
          que é onde o germe -
boca onde o verbo escorre
e nasce palavra
e morre
que é onde o outro
onde o olho
do orifício
onde o solto o salto
o sacrifício
inauguram oceanos
e estrangeirismos
que é onde eu te metalínguo
e tu me hiper-bole
dos sais que mineramos

terça-feira, 16 de abril de 2013

aquarela

quando morrer
e o tempo exigir
a desova combinada
(nas dobras da minha língua
e pensamentos)
nascerão
do meu olho
de minhas viscosidades
nascerão
multidões de passarinhos
piarão
multidões de passarinhos
voarão
multidões muralhas mosaicos
de passarinhos
que pra fora de suas asas
morarão em mim
e então
e tão somente então
serei casa
e ossada
de estrelas serei
serei terra
germinando
germinando
germinando
despudoradamente
o azul

mira acolá

o amor
é minima
e infinitamente
essa capacidade de perceber
azuis

domingo, 14 de abril de 2013

deus - nós - ora

a língua ser
água
a boca
os vincos as dobras
o tronco a fruta
a flor o vão
sementes sementes sementes
o olho ser
água
e oceanos dos ossos
e casa do inabitável
memória de
quando e quens e quês
o suado
o engolido
o guardado entre os bolsos da pele
ôcaso escondido
nascentes
o beijo
(milagre
milagre
MILAGRE
é tocar onde o outro
molha)
vou ficar mais deus:

eu,
meu coração
e o resto
de nada

terça-feira, 9 de abril de 2013

a conquista do fogo

quando a chuva trouxe
às tantas horas de inverno daquela terra esquecida
entre montanhas mineiras
e trançados de seiva centenária
qualquer coisa de
conversas de cachorros
promessas de verde
nesgas do princípio escuro
       escuro mais que escuro
fêz-se alvoroço entre os homens
velas foram desenterradas
baterias inauguradas
lanternas reveladas
e propostas de calor timidaram engolfadas de silêncio
tudo muito maquinal muito decente muito eficiente
só Tiquinho atentou dar palavra no jardim
como que soubesse encontrar
um montão assim de vagalume
fazendo natal nas árvores
zombando dos homens que virilhavam pelas quinas
num zum zum calado
como estrelas caidas do teto
provando que luz
é presente de inseto

segunda-feira, 8 de abril de 2013

o sem remédio fundamental

antes
de pousar
a coisa de asas abertas de olhos
esbugalhados
a flácida coisa sem poros
brotando no torto
na bunda de um inseto
nascente do reto
dos pilares de mármore
dos restolhos de cobre e sinapses e
estações lunares
antes
especialmente
antes
ciscava a coisa vastidões
de promessa

agora a mão espalmada em veias e labirintos
era sem caber a coisa
era sem cabimento sem
carimbo ou verbo
ou braços
nem colchões quarando línguas de sol e gelos e teleféricos rotos
agora era a mão torta como nossos corpos bichos sem razão
ou nem quando
e nem quase
ou como só de olhos e bocas tentamos guardar reservas de alturas
e tesouros
ou um punhado qualquer de luz
que, desentendíamos,
escasseava

e sem poder a coisa
pousar noutra sobra outro bocejo
arranjou de vir assim tão pesada
tão pra antes
apressada balançando as janelas
sugando pupilas em segredo
que foi me carregando de montanhas e ilhas e
explosões solares

fiquei irremediável
todinho perdido de insetos quando chove mijo ou fogo
e a coisa desorientada de garras
cravada no fundo no infinito nas horas
em fendas afogadas de palavras e verbos
e beijos
e que não levam a lugar
nem a quem
e a coisa e me gritar:
ninguém

segunda-feira, 1 de abril de 2013

sábado, 16 de março de 2013

debaixo da saia

nada além de asas
se movimenta no azul opaco
encruado nas vestes do Rio de Janeiro
que em dias de sóis escondidos entre
prédios
velas
árvores imóveis,
dias de ventos
cansados e escorregadios
                e especialmente
                dias de domingo sem festa
sai pra verificar a ordenação das coisas

por um segundo cala-se
a boca do mundo
por um momento e pra sempre
carrega-se o ventre da mudez,
     ancestral totêmico dos surdos
     e dos catadores de latões e peneiras
     e pentes gastos, garfos, goteiras,
     e fendas e fugas, fogueiras,
percorrente anterior de terras nuas
e línguas pardacentas

deito meu corpo que se acama de
cabelos presenteados por cabeças que adivinho
pela pratica de aprender tamanhos e lisuras
e tamanheço e lisuro e desconheço
os desenho da fumaça
a fumaça que imoldável
foge da concretude do meu cigarro
e deixa cinzas desmanchadas no parapeito da minha janela do nono andar
cinzas brancas
cinzas pretas
cinzassinzas,
mas
ainda e porém e sempre
únicas além das asas
a negar a deslizura
desse fim de astro
ondulado no vestido da cidadessilêncio
sobrevoando o mosto fermentado
dos sonhos fluminenses

quinta-feira, 14 de março de 2013

a fome

quando meu famintocorpo
baba enraivecido que não
que nem e
que nunca abstrações ou fábulas
reclamando pelo oco dos meus ouvidos
ouvidúteros deflorados num
mal-me-quer-bem-me-quer-não-qué-tem-quem-queira
choramingando descalabrado
que ser corpo cansa
esse corpossonso carcomido
de brutalidades e sopros
extrato grosso e raso e entre
tensionado de calor e noites
entre mantos entre
caldos e milassaltos de viscosidade e cuspe
entretantos e ninguéns
me escoro sobre panelas e ebulições
pacotes coloridos, comidas instantâneas
e num canto qualquer em que escapa o eu-objeto
observo nos vãos que o macarrão barato esconde
a água se consumindo e se condensando
ponto pré-bigue-benguiano
concentrado, pleno, prenho
espaço de esquecimento por onde vagam bolhas insandecidas
águanautas buscando um não sei o quê
entre choques e explosões, navegando em
água que vira água quanto menos água houver
e eu cá de dentro
vejo meu corpo faminto
evaporando-se
sumindo o corpo do corpo
tornando à condição inicial de ser mais
quanto menos

domingo, 10 de março de 2013

Ocatopuci

a oca
capta
o talo
orna-se
a captá-lo, ôca,
rende-se, cia
ocorrencia-se
breve
grave
brava
grava
engravida-lo
enrepresa-se
absoluta-lo
rompe-se
ôca e cheia
é sem sabê-lo
fome e ceia

sábado, 9 de março de 2013


não é minha boca
que reclama
mas seus peitos
que tremem
é que antes d’ocê
eu se bastava
tu se bastava, mas
depois.
tu eu nós
Sebastiana

sexta-feira, 1 de março de 2013

vértebra zero - fragmentos de cidade

na esquina da cidade
abre-se uma boca do chão

e no fundo de uma fossa
séptica
os homens comungam
lírios coloridos
aparições
vaga-lumes cegos
fechaduras prenhas de réstias
e ali mesmo inauguram uma espécie de comércio
ancestral
              vendem olhos e frescores
              cores de sol e pólvora
              vendem peles de azul
              arranjos matemáticos
              novas composições pro alfabeto
ou
emprestam atalhos para
              o ventre da terra preta
              da lama
              na cama de merda que
              ilumina
              na extrato fera que
              espreita e saliva entre silêncios guardados
                                 / no vão dos ouvidos
prometem terras e carneiros
banquetes de seios rosas e úteros
e vaginas molhadas feito terra
ardendo feito estrelas
no justo escambo por
              verbos virgens
              palavras verdes
argila tão mole quanto as paredes decoradas
de insetos negros e escorregadios
em que se apoiam com prazer e medo

mas os bueiros são entupidos
não escapam
              os bueiros também rejeitam promessas
              os bueiros também rejeitam plutônios
              os bueiros também rejeitam palavras

e na dobra das ruas
as línguas do chão desafiam
desafinam
e o comércio é interrompido pelo sinal do intervalo
por tambores sinos gongos
latidos de cachorro na madrugada
explosões nucleares no globo
pelo cadeado enferrujado
pelos pais adoecendo
pelos terroristas árabes
pela hidrofobia dos vizinhos
pelos toques da mulher amada
da mulher sem nome
que os consome
e veste
e calça

que homem não nasceu pra fungo
nem água
é coisa sem ponteiro ou entrada
é como o vento
é como um beijo

ou como o
nada?

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

(re) vértebra nº2

te
ver
                  e re
ver-
te
     ves
te
  as ves
tes do osso
            de compassos
           e  terremotos
repara
tento
re
ter-
te
       mas parte  tua
me re
   ver
te
em resto e
                        justo
                     eu vasto
                        justo
         eu teso
                        justo
eu réstia
                        justo
        eu  fato
      morro feto

(re) vértebra nº1

uma sola de esterco e lendas
sapateado de andaimes
estouros no telencéfalo
e nas boiadas
manada aflita e desesperada
procissões
romarias
enxurradas
de elefantes

ou não
ou nem mesmo elefantes
nem coisa alguma dotada de
trovões e
sussurros
nem mesmo as ogivas guiadas à distância
as fantasias, os warming filters
os corpos pregados a abstrações geométricas
cruzes
luas
cascos

nada

poderia arrancar os dedos e salivas
que essa Crassostrea gigas
finca na pedra
entre polvilhos e bronzeadores

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

do mestre XII

        "Eu estava encostada naquela árvore
muito azul quase
         e veio um raiozinho de sombra era
de tarde na minha boca
         Ele me segurou entre os dedos.
         Fiquei brilhante com meus cabelos
lavados...
         Então dei um salto
         muito leveza
         muito
         pro vento
         e no bico de um sabiá eu fiquei
de ouro
        a cantar
        a cantar..."
                                             M. B.

isso do enigma ter bom olfato
isso de fazer montaria no tempo
ainda há de nos atropelar
Afogar-se é inevitável na inerente desrazão de ser. Que faço entre coisas? Perguntam de São Luís. Eram luarais de eu ter olhos azuis, respondem de Cuiabá. Mas vem tanta luz das fendas que não sei se ilumina ou cega.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

candeia sem número

Homem de terno e cabelos ralos sorri para canetas e papéis dispostos sobre uma bancada. Outros dois homens de terno escutam as máquinas refrigerando o silêncio da sala. vrom-vrom-vrom-vrom-vrom... Homem de cabelos ralos estala a língua e esfrega as mãos, mas as máquinas trabalham pesado. Num telão de dois por três metros vários outros homens correm em um campo gramado. Eles se diferem pelo uniforme. Nenhum usa terno. No gramado dois homens vestindo camisas diferentes um do outro começam uma briga. O homem de uniforme branco acerta um golpe no homem de uniforme verde. No telão, as imagens mudam vertiginosamente. Um muro desaba. Homens de branco e homens de verde ganham o gramado. Homens fardados entram no campo. Homens fardados disferem golpes com bastões nos homens uniformizados. Homens fardados carregam cães nas coleiras. Homens fardados riem dos homens que sangram.
O homem de terno e cabelos ralos derruba as canetas da bancada e pondera como pode haver tanta violência numa sociedade tão organizada. Os outros dois de terno tossem e chacoalham os ombros. As máquinas trabalham pesado. vrom-vrom-vrom-vrom-vrom...

sábado, 2 de fevereiro de 2013

carta pra ninguém


Sabe, filha, essa mania tua de pintar paredes com rolo compressores ainda há de se tornar remédio. Entre tanto palácio e palafita sou para fins exploratórios. Cê me mete num tubo de ensaio e eu refrato silêncio como quem diz:

"Que decidiram teus olhos, filha? Sou réstia ou sombra?"

Gosto mesmo é de vácuo qualquer que te maquia a queda e desorienta. Que tanto de susto é esse no olho? Confesso que é com maldade o que te desenho com os dedos enquanto cê me sorri dentes de espera. E que mais fazer? Espera de acabar o túnel, espera de bala perdida, de transeuntes lentos. Espera de velhinhas e seus guarda-chuvas, de pedintes, homens-bomba, messias, putas. Por sorte o túnel demora o bastante pra me rir.
O que me adoça são tuas costas tatuadas do que me transborda:

"Se te mordo o sempre, você nunca?"

E o túnel tarda.



sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

diário de bordo nº1

parece mesmo uma persiana elétrica. meu nariz descascando deve ser oferenda natural do processo. essa vastidão de pele que se enruga com um ventinho, com um sopro. fuuuu. nem convido o sol, mas ele se espalha e dança ao meu redor. será fome? o sol se sente só, imagino.

a gente descama é pra ser banquete. é um payback, sir. a banca ganha. toma lá três moedas sem valor. teu nome, teus objetos e teus tiques. recompensado?

me chamo tal tal e tal. não esqueço meu nome. tenho os pés cravados no vazio, molho a cabeça de vento, me refresco e ainda assim não esqueço meu nome. meu nome é isso isso e isso. sou calo, sou bravo. acho que sou. mas não, não raciocino mais. perdi o hábito. nem terra santa mais me permite ou roga. sei que me deram nome e me lembro das coisas. lembro do varal. lembro dos jornais molhados. lembro um pião, uma calcinha, um carro. lembro umas roupas sem tamanho. uma coceira, uma dor, umas flores nascendo, tampões de ouvido. sou todo labirinto sem chão nem teto. escapo de mim e não é por mal. tento voltar e me atravesso. vivo na cauda da ventania. já sem poeiras ou estragos. sou resquícios de inteligências. aprendimentos de muito andar.

escuto uma voz aqui e ali, gargarejam muito. poucos cospem água pra cima. querem molhar o céu um pouquinho, mas é só a vontade da bagunça. engraçado como sorrisos boiam como patos. terão asas? a maioria grita. me chamo tal e tal e tal. que pensam vocês das minhas tintas, oh cabeças e boias? e de mim? e de mim? sou meu corpo e o oceano inteiro! e eu não bato pernas, não senhores. sou brotado do centro da terra. sangro magma, pois sim. pusilânimes! será que o sol dança ao redor de todos?

estou molhado de sol. encharcado. se quero mijar, mijo sol. se espirro, espirro sol. pra chorar é sol. cuspo sol, bebo sol, lambo e bochecho sol. queria virar fonte de praça pública com o pau de fora. gozaria sol na cara de todos vocês. será que nasceriam asas?

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

o destino do homem é um porão de navio

que esse badulaque
quara a pele e não pode
é ciência recente
crescida dos cordames de amarrar carne
e referências bibliográficas
mas ando já
sabendo sem muita crença,
mas sabendo, enfim,
que não me alcança
a dança dos dados
nem razeia
nem suspende
mas atravessa e
guarda dois dedos de prosa
brotados do último giro
entre um palácio que murcha
e um mofo que cresce
me diz assim:
que chato ocê, descascador de batatas
que horas planta nisso que
é terreno mais sem minhoca!
ai boca sem corte nem fenda
nem fundo
cadê faca de escorrer silêncio?
dói muito a pintura de cal?
quem foi o malvado que comeu seus olhos?
que houve de manhã tão pouca?
cadê aquela enxurrada toda?
e suas frotas de casca e vento?
que é que há de ocê sem asas,
nem coices
nem espirais espadas escadas?

que sonho mastiga esses calos
inúteis
inúteis
inúteis,
descascador de batatas?

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O fundo

vê esse canto de fenda?
esse escorrer de passagem
encerramento de abrigos e matadouros
percebe o sol pequeno, tímido?
a manhã que pondera se nasce ou passa
ou perde-se
entre dois filetes de candura e medo
que chamam boca
e é onde os cavalos trotam?
vê as ranhuras dos dedos?
as unhas guardando terrenos
territórios de outras gentes e
beijos pólvoras certidões de compra
e lendas
vê esse ensinamento de água?
cores de fantasmas e ventos
matéria de médiuns
ou loucos
ou
esse canto de casa
vê o tijolo caído?
enferrujando as rendas
e os cheiros de café e manteiga
vê o tempo sentado
curvado numa trincheira em guernica
ou nas favelas colombianas?
viu como balança as pernas?
viu os dentes amarelados
sem saliva nem brilho?
leu os labios rachados?
perguntam:
pra que esquentar gelo?
em quem planto meus pés?
quem há de comer tanto amor?
mas essa cabeça tombada
que lambe o mundo pra beirada da cama
essa medusa que entorta a luz
e cria flores
só cospe enigmas
vê?

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

elementar, minha cara

foi-se tudo
tudo que é bile e asco
que é zelo e apego
as cores de inverno
teus cílios
tuas meias pelo chão
foram-se elásticos de cabelo
fios de cabelo
teias de cabelo
xampus escovas repentes
mastigares
quimeras
dentes
o cuidado se foi
               (meu coração não)
foram-se os risos
as festas na orelha
as rimas escondidas
as palavras sob as unhas
os enredos
os entre-dedos
foi-se a tristeza
a quilometragem
o baile dos cheiros
o formato da cama
a calma
a dor
a chama
a flor gastou-se
               (meu coração não)
e todo verbo de guerra
foi-se o que não era
nem cinza
nem semente
e se te vejo clara
entre marcas raras
o que sobrou é
evidente

é pouco

o que fui é sopro
casa de traça
cabaça
rotas de gastrite e encanto
espasmos de campo
dominó
ânsia de cesto
de treliças firmes
é concreto e viga
amor eterno
em vãos de terra seca
em chão de gente morta
montanha em broto
restolho de cêpa
o que fui é cedo
é sopro
o que fui é porta
é pouco

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

esse sentimento mal gerado que me engravida

seria de doer
se dor fosse
se corpo houvesse
se tendões tendessem ao repuxo
sem mais
sem menos
sempre ao acaso
teria cabimento
se de conteúdo tratasse
se pálpebras velassem vales
de adorações
altares
maracujás
duas grandes cumbucas de violas mansas
e amores justos
e sorrisos sem esquecimento
nem amarelos
seria de amargar
não fosse o latim dormente
desacordado
não fosse o coma da língua
não fossem os dentes moles
de catar frestas e cigarros perdidos
de colecionar distâncias
de medir lábios e
rejeitos riachos rodovias
a lugar nenhum
seria mesmo de doer
se dor fosse
mas é só o enjôo
de outro calendário virgem