terça-feira, 3 de dezembro de 2013

pequena do 6º andar

pequena
que carrega verbo e tinta
debaixo do braço
como quem guarda o mundo
o mais pertinho
o mais dentrinho do peito -
                              ou do baú de tesouros
                              que guardamos dentro do peito -
ver-te crescendo
germinando
ramalhetecendo, pequena,
nessas dualidades nossas
tão nossas
tão imensas, pequena
é ser-te, pequena

e o maior mesmo
é escolher o que de ti é mundo
a tua porção mais trágica
não essa versão de mares impossíveis
mas aquela que você sabidamente chamou de
                                     dançarina monstro
mesmo tendo tu separado tuas formas por uma
linha
fininha fininha
de quase o caderno não dar bola
eu ainda
muito cruel ainda
e muito sem maldade, pequena
te neguei o oceâno

ainda

escolhia o universo
           três mil vezes
           o universo,
           pequena,
não os mares
porque o Atlântico dói
e sereia, se canta,
também sereia se engasga
enquanto esses pés, pequena trágica,
essa condição de sermos bailarinos,
monstros de sapatilhas,
permite sapatear no mundo
o mundo
o mundo inteiro
furiosamente
do escuro do teu 6º andar
até ao amor

pequena,
se pudesse te dizer
que até o amor
existe
e principalmente
existe o amor pra cima
                     - pra cima! -
então esse elevador jamais chegaria
onde você pra sempre
saiu
e nem eu me afogaria
nesse resto de água
onde minha língua
como um rabo de peixe
se retorce -
mítico monstro encalhado -
esperando desesperadamente
o dilúvio

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