segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

última refeição

no meio das pernas
está a chave mestra de todo o alardeio
atenção, prédios altos!
de seus joelhos e calcinhas escorre o verbo que
verdeja nas praças
nos trilhos de trem
nos galpões abandonados
e sobretudo faz verde sob travesseiros e jornais
vê bem, janela!
as putas, os poetas, as bichinhas adolescentes
santos praticantes do religamento
pela pálpebra
pelas raízes dos cabelos pelo zelo pelos vírus pelos vãos
pelo rabo
coube a eles o papel sacerdotal de contadores da divida inicial
vê só, homens,
o paraíso retocado
pela boca carregada
de latim chulo
de línguas no muro
de gazelas e flechas e cifras e fogo
dentes carregados de final
pois o apocalipse, herdeiros do pedestal,
o apocalipse é só uma bandeja de barro cozido
com suas cabeças e bolsos e bundas
entre maçãs podres e asfalto quente
o apocalipse, corpos gordos,
é preparado a golpes de navalha e balas perdidas
é o divino banquete de bucetas e escalpos e rolas
a devorância inerente
de putas, poetas e bichinhas adolescentes

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A boca, a brecha e a besta

atenção
às constelações queimando
e minha boca que só computa o vão
entre seus sorrisos e afastamentos
guardo parcelas do necessário
entre-dentes
enquanto o tempo não congela
e não nos tornamos uma fotografia
inamarelável
sigo instável entre supernovas
e gentes explodindo
e corpos interditados
e olhos que sucumbem ao peso de ver
pra trás
dedos e performances
o colapso improvisado
para espectador nenhum
a busca irracional
pelo rastro
do momento primeiro
onde não reinavam astros
mas bestas

La voz

oye
son dos estrellas
quemando polvora y
huellas de casualidad

oye
lo que rompe
lo que mescla y
lo que falla

oye
la voz que entierro
entre algodón
y hierro

oye
la voz que encerro
la sala oscura
las palabras duras y

oye
la voz que mueve
leve y rara
mientras el tiempo
para

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

O leão castellano

de todas las cosas que pulsan
mirá, león
y abrí la boca el más que puedas
pues que todas las que cosas que si arrastran
león
las que cosas que tardan
las que cosas que priman
las cosas que manchan, léon
son circos que llaman por diamantes
y almohadillas entre las uñas
afilá, pues, los dientes
apurá, pues, la lengua
rasgá la boca el mas que puedas
es que las cosas que pulsan, león
guardás, imbecil,
salvaje estibador,
en tus ojeras y remolinos
en haciendas de hongos
y levadura

sábado, 10 de novembro de 2012

Esmigalhado

adeus, tereza
adeus
adeus esse esmalte vermelho
essa mancha de acetona
na beirada velha
de madeira velha
da nossa cama velha
adeus
e adeus seus dedos de comer
seus dedos de pedir silêncio
seus dedos de mostrar
mostrar tereza quando eu não quero mais
não, tereza.
guarda os dedos
as unhas
a pele encruada na trama do lençol
os fios de cabelo
o cheiro das calcinhas
sua vontade irrefreável de comer bonbons e vinhos e tardes e
de comer tereza
comer eu
nossas vontades nesse
come-come
que acabou em mim, tereza,
ajuntando buraco demais
por isso adeus
adeus seus olhos pequenos
adeus sua saliva
adeus sua virilha quente onde guardava minha mão
seus pulinhos
suas juras
sua bunda
adeus sua bunda, tereza
e tudo o mais que o humano jamais chegará a entender
e adora e ama e crê por falta de caminho
como a chuva num domingo inútil
ou um passarinho que dá cambalhotas para pegar migalhas do sol
que de tão cansado se espasma no chão
ou como a poesia
que me encontra aqui, tereza,
emparelhado na cama
cutucando com a unha
as manchas do teu passado
eu o corpo curvado
eu boiando no ar
eu nos teus cheiros
zonzo de tanta cambalhota
por migalha
pouca

domingo, 4 de novembro de 2012

Faxina
















ajuntamentos de olho fechado
ouçam bem o que
esqueço e espero e espasmo
escorram da carcaça que enferruja
num ferro-velho qualquer
entre ratos e fins-de-fresta
rumem sentido nos calcanhares alinhados
um dois um dois um dois
eu  daqui me monto
num rabo de tritão
e afundo o que restar de ilha
abrandarei oceanos
em baldes de orvalho azul
trouxas de calcinhas apodrecidas
retratos de fungos
latas de sardinha troncos de musgo manhãs recém-nascidas
e todo o ferramentário
tudo
tudo
preciso ao faxinar do mundo

terça-feira, 30 de outubro de 2012

.

os urubus rodeando os prédios brindam a cidade de paz e silêncio. todas as cabeças dos homens rachadas de sol, fendadas de ventos, da cantoria muda dos urubus. é o doce caducar das folhas. vir do chão. voltar pro chão. essas verdades de carniça.
o arranjo é tão claro que já não incomoda o separar dos olhos. nem acalenta. nem diverte. nem mata. comedores de luz, comedores de peixe, comedores de lixo e eu sem fome. prenhe de nada. grávido de vazio. sem um mínimo traço de fome. talvez o chão seja ainda o único sabor que me chama. mas a língua já não pede nem brada. não treme. não espasma. só espera. espera. espera. o que acalma são os urubus rodeando os prédios.

domingo, 28 de outubro de 2012

antiprotocoloracional

o homem, de tão racional,
é incapaz de perceber
que as maritacas não conversam outra coisa
senão a maldade de ser

exercícios de domingo - poesia de jornal #2

andava confluído de espasmos
e sabia mesmo uma garrafa guardar
o mundo
todas as pirotecnias do olho
a língua comum que
busca entre-dentes brasas
de arpejos e escritórios de advocacia

o fogo teria começado em uma adega
entre cadernos de poesia
canoas, tapetes de musgo
rebocos de
parede partituras poréns luares

o incêndio acumulou
todo o mês de outubro
além de seis luvas do corpo de bombeiros
duas molduras fendadas de cupins
incontáveis arquivos de computador
e uma língua que tremia

testemunhas confirmam o caso:
"desungia o escopo pelas ranhuras
que recorreria ao amor
e à brandura
que depois tudo se arranjava
que o resto é coisa extensa
e dura"

exercícios de domingo - poesia de jornal #1

na hora de evitar
um novo blecaute
o sexo, fauna violenta
cortou a garganta poética

30 feridos comentam:
"capacidade natural
para o crime"

e na conturbada vida do guerrilheiro
só o rasteiro ilumina
ruas relíquias palavras de energia escura

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Manual de ofício, elemento nº 30 - torção

     poesia
           é tirar leite
                         de
                  poesia
     é tirar leite
   de
     poesia
           é tirar leite
                         de
                  poesia
     é tirar leite
   de
     poesia
           é tirar leite
                         de
                  poesia
     é tirar leite
   de
     poesia
           é tirar leite
                         de
             palavra

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

religamento

vejo inevitável
feito borra
o dia em que
eu gangorra
hei de boiar inerte
entre a queda
e o flerte
do subidouro
todo feito
caso desfeito couro
coisa
inexpugnável

terça-feira, 23 de outubro de 2012

aforismos vários

poetar é viver do nada: é nadar

.

prisão é o comer pedras do ser nascido pra vento

.

só as conclusões sem sentido fazem rabanete

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

garotas de icaraí

olha, mulher,
gosto mesmo é quando
o vento desenha
o corpo de curva
no espaço em branco
onde me acusa
e desdenha

(presentim)


Confessionário de templo surdo

o homem está a um fotograma
do colapso
o homem é todo novelo
tem espera de casco
e vê desfolhar as unhas
com mitigada resiliência
o homem está em condição
de pedra
o homem é todo pedra
e escora-se no que o mantém -
    saudade de vento
    amenidades
    sequidão de orvalhos
           ou enxurradas
- por fim de ser pedra
o homem reteve em seu interior
                          mole
outro tanto de pedra
afixadas por razão do tempo
que o conduzem a condição de ilha
o homem está impedido de oceâno
o homem aguarda o romper do látex
e todo material ultra-resistente
o homem está a um engavetamento
do colapso
o homem é todo mar
é todo sopro
e todo lapso
o homem está a um colapso de ser
todo broto
todo homem

sábado, 20 de outubro de 2012

Insert-cida

de cada lavra que fendo
em cada peito que brejo
há sempre um barra-vento
contendo contenda e sexo:
per ver ensejo
per ser envexo

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

vou-me embora pra bahia

é tão triste o bloqueio gerado por excesso de atividades estúpidas e processos demasiadamente racionais.

deus, meu deusinho
se nocê eu cresse
talvez que pedisse
todo em fenda
ou fantasia
meu sinhôzinho,
tem lá bahia?
tem lá bahia?
rede, bicho e putaria?
tem lá bahia?
nêga, cachaça, doença
pobre, sorriso oco
e tudo o mais que é doce
e pouco?
tem lá bahia?
tem samba, lezeira e poesia?
gringo tolo, colar de ouro
cape town adormecida?
tem lá bahia?
tem lá bahia?

meu deusinho
se ôce não me atendesse
talvez que eu desistisse
e andasse como ando hoje
sem te pedir um afago
nem contenda
capaz que caminhasse
pra beira do asfalto
esperando o motor tossir
parindo brecha
"alto alto!
desavexa
oh, antipalco"
capaz que eu mesmo fizesse
se não moenda
se não bahia
um apocalipse
é que assim, deusinho
talvez
e só talvez
a alegria me servisse

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

tchau poeta (até breve)

engraçado como todo excesso dá em náusea. exagero. exagero. mas cansa e muito. ando enjoado de ler manoel de barros. quem diria? enjoar de um dos poetas mais monumentais da voz humana. acontece. transcendeu é blau, abraço, foi. é atravessar um oceano, redemoinho atrás de redemoinho, remendando o mar de escapes e escadas. é chegar ao chão (ou saber-se inerte?) depois de tropeçar no fim do mundo. precisa, urge, grita por descanso. uma retomada de fôlego com a esperança de que, sim, finalmente cheguei ao âmago da semente. porque transcendeu é blau, abraço, foi. mas sempre tem mais. daí a gente volta a nadar, a bracear buracos e fendas. cheio de cansaço. e tesão. e cansaço. e tesão. goza-se no final ou no processo? e tesão. e tesão. e blau.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

musiquinha futurística - urubu (em construção)

arma o trem de pouso
recarrega
as fendas de fendas e fere
todo azul em sua condição
de ave
ave ave-rei
sempre te adorarei
adorna os céus de asas pretas
pousa o trem
dez mil carretas de rejeito
de poemas de canções
de fonemas de varões
de virgens de cafetões
do nosso amor eterno
e tudo o mais que finda


o bico rebatiza o som
que re-retumbará
a boca reboca e bica
vazio concreto
todo movimento


e o urubu mastiga
a minha, tua barriga
e o urubu mastiga
a mim, a tu
e o urubu

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

extra-da


anda andarilho
com cascos de jumento
pocotó
       pocotó
              poco
              tempo

domingo, 14 de outubro de 2012

palavra

larva
            lavra
                      vala
                      lava
               rala
                      lava
               rala
                                 alva
                                 alva
                                 aval
varal------varal------varal------varal------varal
vara                                         vara
      
                   rapa
                        ara
                           ara
                              ara
                                 ara
                                   para

arar                 lavar                  ralar
           ar                    ar
ar                    ar                     ar
  ar           ar           ar            ar
                      a
                   palavra

remar ermar

asdispois que nóis saímo
as luize borraro o chão
de água preta e fastura
e nas borda da rugidança
mia'mãe punhava braseiro
em casa de gelo mole
deu que nóis fiquemo num
vai num vai
arribâno e recaíno
vai num vai
cresceno e descresceno
vai num vai
eu inchâno gigante
vai........
......num
vai........
......num
............
colosso de ausência

sábado, 13 de outubro de 2012

aquela estrela é dela

"vida      
           vento
                         vela

       leva-me daqui"



só                       
ser                      
cercado               de
                      distâncias
                      destoa 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

na tua barriga eu mergulhava é pra sempre (ou loirinha)

chove aqui e parece o mundo
enxurrado de fora do chão
restolhos do dia reclamam
amontoados de poeira
como os novelos de histórias
guardados no umbigo de loirinha
tinha causo de amarelinha
soneto de cambalhota
novelas de calcinha
haikais cordel de olho esticado esfrega-esfrega
uma fábula de beijo roubado
cantiga de corredeira
repente de pássaro e pouso
"dorme ni mim que eu sonho gostoso"
e loirinha ria
ria o seu umbiguinho cheinho de palavras
gostava de trocar-trocar
com meus bordados de silêncio
e loirinha ria
que história precisa de pausa
e loirinha ria
que eu mudo fazia sentido

hoje não tem poesia

balanço do dia:

1 estômago vazio
1 cidade caótica e congestionada
3 horas de engarrafamento
1 irmão que ruma ao polo norte sem abraços nem apertos-de-calefação
1 sem número de cervejas
impropérios ai-meu-deuses e ônibus perdidos não contabilizados
1 pomba que veio molhar
de fendas e cascaveis
as grades cinzas
do meu nono andar

terça-feira, 9 de outubro de 2012

aforismos desinúteis

samba de terráqueo nasce em cabideiro de língua

-

quem penteia árvore sabe os dentes que tem

-

amigado de curió é rolinha

sábado, 6 de outubro de 2012

linha cruzada


    não
    não me interessa
   nada me interessa
           interessa não
                     não
                nada não
           interessa
                     sim
           interessa sim
                   o não
                   o nada
                   o nada
        me interessa

meu lar é onde estão meus sapatos


     au                   au
   au          alpendre          au
          au           au
   au            de                au
 au         au        au        au
au            vira-lata                au
        au        au          au
  au         é balaio de         au
          au            au          au
               estrelas
aauuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

aforismos vulvos

e então deus criou o Hímen à sua imagem e semelhança

.

cajado de pastor em casa de ventre firme é ovelha

.

e deus muito aporrinhado bateu o pé: "porra, mãe, esse planetinha azul é meu, nem vem"

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

bate-estaca em campo seco

ê, coração velho
ê, inseto rasteiro
ê, redes
des
entorpes
des
embrulhos
des
enlaços
ê, balaço
ê, balaço
ê, balaço
de entulho

Proto-pássaro beiciforme

um passarinho pousou
um cano na minha cabeça
um rápido bater de bicos
um pedido de colar dedos
um jeito de espingardear-me
um cuidado com minha língua
cuidado
cuidado
ela é que me flutua

domingo, 30 de setembro de 2012

malobêm : querer

todo espalmar
tem gorda intenção de
água
refulgea
vidro areia
em cavalares afogamentos

tratado sobre o barro

comer do chão
cardumes de tetas
colher dos vãos
cordames
coroas
cornetas
cometas de
fome

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

(des)aforismos II

toda criança é um bugre selvagem beijando a testa de deus

.

envelhecer é naufragar

.

felicidade é reinar sobre seus monstros com mãos de vento

terça-feira, 25 de setembro de 2012

(des)aforismos

O fotógrafo é um homem nu entre barreiras d'água

.

Café da manhã de poeta é céu azul e andorinha morta

.

A atriz quando gagueja, gagueja deus.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

domingo, 23 de setembro de 2012

A Manoel

ninguém me convence
que o poeta do chão
não tenha nascido derramado
ou então
seria o céu enrodilhado que
arde arde
entre seus dedos de tarde?

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Sonho vigésimo

Sonhei de você uma anti-poesia. Me fazia pelo menos vinte instruções de como crescer verdadeiramente, rearranjar nos mapas o meu amor feito um carregador de balões de hélio. Te confesso que ri, ainda mais quando supôs que eu estaria amassando os papéis "a essas palavras amassadas junta o resto todo, tudo o que aqui vai são Hiroshimas e convencimento". Mas logo eu? Li Nietszche aos quinze, caminhei e caminho rente a paredões de pedra de quatrocentos metros, serpenteio nas bordas dos meus olhos e quase, quase caio em mim. Me equilibro nos sorrisos que mastigo, nos verbos que me recontam. Mas ri ainda mais porque noventa porcento do alemão é pura besteira juvenil. Percebi então suas pernas se movimentando, o espírito tentando o parto, suas mãos rompendo a placenta do mundo. Te olhei do outro canto do labirinto (talvez mais perto do centro, talvez mais perto da saída) e quis te beijar os olhos e os calcanhares. Te vi mudada, me negando, mas, na minha mórbida crença de beleza ascendente, te vi melhor e mais próxima.
Ri outra vez e, entre pedra e água, te invejei: nunca consegui fazer um troço daqueles. Mas acordei em outra cidade e você calada num álbum de retratos tentava nascer as palavras que te engravidei, feito um aborígene lecionando genética. E Hiroshima afundava.

sábado, 8 de setembro de 2012

domingo

Hoje amanheceu mormaço
Dia-mormacento
Mormaço-tempo
Subi subúrbios nos olhos
Para ser pedraforismo
Recolher em mim
O sentido do mundo
Mundo-lento
Mas não não
Não
Da última curva crescem fumaças
Mordida a montanha
De dentes pardos
Cor-consentimento
Pós-madurez
E num canto qualquer dizem
Meu nome
Que a montanha rebate
Doce
Água
T'esconjuros
Vento
O dia-mormaço acorda
Balança as árvores e canta:
"Pequeno, levanta,
Te vivem"

----x----

Agora eu eramos além
Ali ou mais
Dia-tempo
Iguais

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Musiquinha de amor novo

Não sei se por me visitarem fantasmas não convidados andei pensando em palavras soltas. Muito provavelmente ligações que meu cérebro me sussurra com piscadelas nada sutis. Pensei em Andirá, morcego, andei a escrever. Talvez pelos encontros com o silêncio das cavernas de Ibitipoca, talvez por outras razões muito mais óbvias que obviedade do mundo duro.



Andirá

Andirá
Chupar em
Turbilhões
Galões e litros
De guarir constelação
De decepar
Ser par, cerzir
E serenar
Olhares Piares Tonares Palmares
Saída nascida
Muita luz que há
Por se-te atravessar

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Parabolicando

Re
Vou ver
Tudo
Rec:
"O,
Merda,
Festa"
Cabe o mundo
O que rompe
E o que resta


----x----

Milloriando para fins didáticos

É tanto apocalipse e salvação
Que já ninguém me convence
De que hoje os tubos não são
Nossa única religião

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Mamutes e Yetis (sonho oitavo)

Que faz você, pedra, na Era do Degelo? Escalando minha nuca, rente ao precipício, te vi cravada nas horas. Era uma lança de gelo azul como todas as outras da cadeia pontiaguda de montanhas. Você, múmia congelada, revelando um passado de homens nus, sem parreiras, um carnaval de estreias antigas.Você, besta extinta, ainda me assombrando os caminhos.

Que faz você que margeia todos meus despenhadeiros? Me empurra? Força um tropeço? Adorna o lugar com meu grito e desassossego? Ou vai me tomar nos braços e dizer que me ama pela milésima vez? Repetir desculpas, golpear a cabeça contra o mundo, ameaçar um passo em falso?

O brilho dourado de uma Shangri-lá nos cartões postais e no fundo dos olhos traceia o cenário. Por que entre tanto e tudo só você me aparece congelada bordeando buracos negros? Aponta pro alto, agulha remota, sem norte. Se te sigo caio.

Quebrei você em mil. Arrebentei tua cara, tuas mãos, teus peitos, tua respiração. E você se deitou comigo, acendeu abajures, aninhou cantigas enquanto o mundo florescia fogueiras. Entrei de novo no único templo que respeito e louvo. Eu fiel\devoto\santo, excomungado. Mas mais uma vez eramos quimera, frágil e completa.

E como está magra e linda! Tão pequena e quente! Te fiz com doçura e delicadeza, feito um mar bombardeado. Suja, queima, cega, mas responde orquestra de trombones e cometas, orquídeas e assombros. Depois você dormiu, me encostou a bunda como sempre fez, puxou minha mão pros teus peitos e calou meu nome entre segredos. Te ajeitei num canto, nunca acordada.

De resto soprei cascalho e reza montanha abaixo: neva, por favor, neva.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

No fim é. Só que nasce e transfigura.

Atravessei a parede como quem rompe manhãs brancas. Sem sucesso. Tentei os dentes, depois as mãos, as palavras, os dedos, os olhos. Pedi, tentei, forcei, seduzi - dia, me carregue pro diabo que me parta ou me complete! - mas tem hora que o mundo é só saliva. Te escorrega, passa. E o que dói é perceber. Do lado de fora o sol martelava minha janela - urge viver, porra! - e eu a mastigar planos e projetos que me escapavam pelo travesseiro.

Levantei exatas quatro vezes. Na primeira me convidei prum café com o bom verdejar de sementes molhadas. Mastiguei sem ser. Sem tesão, sem dureza, sem gozo, só a fermata das horas e nada que me justificasse. Dancei a culpa do corpo, velhos passos que me fogem e confundem. Pisei no vento com pegadas moles, outonais, asmáticas. E isso ele não respeita - e respeito eu?. Me derrubou no chão, nas sombras da manhã, nas mesmas novidades dos jornais, nas mesmas ofensas dos vizinhos, os mesmos latidos dos cachorros.

Tentei ainda outras vezes. O sol seguia se embrenhando nos tijolos e fios de cabelo. Invadia minhas janelas, se deitava na minha cama. Revelou pequeninos circos de seu corpo como a voltagem das coxas que se denuncia por baixo das saias. Tem hora certa pra levantar a roupa, baixar estrelas, explodir o universo. O sol sabe disso, muito mais mulher que a Lua. Dá vida, esquenta, lambe, maltrata, queima, acolhe, gera, come, mata. Mais mulher que a Lua.

Mas me lembro de que o Sol é Sol. E que a Lua é Lua. E eu: varal, arame retesado, risco mínimo no infinito. Mas me traio ou me engano. Assim como rascunhei numa próxima peça um personagem que busca conforto embrutecendo o mundo. Mas o personagem sabe que mente, a poesia vive e arromba os olhos:  "Deem a essa cidade o nome de cidade \ e a mim me chamem homem, me cabe \ mas aquela mulher que dorme sonhos de adoração\ aquela que me esquenta a cama e esfria as mãos \ aquela que é paradoxo\ verdes \ tardes \ poesia \ ela seguirá indizível".

Quis tanto firmar as pernas, encher mochila, desbravar narrativas. Pensei vales, fendas, acordes maiores, boca cheia. Pensei Minas e seus mistérios. Mas segui cravado em mim. E me odiei como sempre odeio quando tenho o corpo descansado na noite alta. Me enche os olhos quem conta histórias. Me enche os olhos quem vive histórias. E não fiz nada no dia de hoje. Nem tinha peça, nem produto, nem arte, cimentado em mim, olhos sem brilho .

No fim das contas o dia foi dia. Os cachorros seguiram cachorros. Os carros passaram esbaforidos e acelerados como todos os carros. Os passarinhos cantaram as mesmas canções, o violão vibrou as mesmas notas, a boca repetiu as mesmas palavras. Tudo igual, um dia inútil. Mas me traio ou me engano. O sol, mulher cheia de artifícios, baixou as luzes, coloriu de roxo o mundo cinza e explodiu damas-da-noite em versos. E minha parede rebentada em poemas, sorrisos e garantias.
"Viver parece até uma espécie de cacoete"
Dona Quita

domingo, 26 de agosto de 2012

A Daniela

Pequena, perdoa se te escondo
Na última réstia das gavetas
Quando a luz já não sabe
Se é prenda ou mordida
Na teta escura da vida
Quando a luz já não sabe
Se cega ou se segue
Jantando juntando moendo
Poeira


sábado, 25 de agosto de 2012

Cagaço

Cozinha-se uma estrela
Nos sambas e lotações -
Mesmo que muito esforço se faça
Nos postais, aviões, quebra-mares
A borracha consumida
Some

Lá fora os home titubeia 
Avança, bufa, pinta
A rocha mole da bochecha
O beiço murcho de amarelo
Miúdos olhos de marola

Deita sombra nos fotogramas
Espalma o tremelicar dos dedos
Entronca, retalha
Horizontes foguetes balões temporais de azul
Cheiro doce de menina

Varre a luz esparramada
Dinamita pomares
Engole brotos e flores
Carneirinhos vaquinhas placentas
Verde inconclusão
Mas quando explode o cheiro
De um sorriso sereno
Vacila
Rôta e fraca a borracha
Os homi em segredo
Se caga de medo

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

terça-feira, 21 de agosto de 2012

De quando a musa não vem


Queria a falange, muito dura e tesa,
Abrandasse a represa, moenda de
Bordados bocas baques beija-flores solidão
Mas tua voz escoa
Silêncio
E tudo em volta voa
Palácios de tijolo molhado
Voam
Pardais costurados de varais
Voam
A carne nova, a carne velha
Voam
Saturno cortinas apartamentos
Tinturas condimentos luares
Partituras poentes paredes pomares
Alumbramento
Só o verbo não 

domingo, 19 de agosto de 2012

Comer é esfomear-se (sonho segundo)

Jantávamos os quatro. Meu irmão, muda solidez, sorriso de goiabada. Eu, jardim suspenso, adormecido ao som da madeira, ao cheiro do sol queimando o horizonte. A cadela volteava entre as cadeiras, edificava as horas, a bocarra cheia de tempo. A cadela sabia. Veio me lamber os olhos e o céu da boca. Fez-me festa nas orelhas. Abanei o rabo, gentil compreensão.

O pombo brincava de gato e me roçava as asas. Taquei-lhe um enigma. Curvou o pescoço, gratidão de passarinho. Bicou, mastigou, umedeceu, cuspiu. Abri a boca, dava-me o que comer.

Do dia ainda vivo nasceram pernas minhas. Retirei-me. Não sem antes agradecer, braços abertos, a azul cumplicidade disposta na mesa.  Caminhei pelos retratos, marchas de elefante. Botei os olhos de molho, lavei as costuras das mãos, torci o pulmão. Pintei as paredes da casa a golpes de facão. Interiores. Cobri as portas de limpa cor sabão de coco. Como se o resto não mais fosse. Mas lá fora chovia.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Ofício

Recua o gesto
Cadeia de intenções
Tensões
Tendões
Tantos poréns enrodilhados de
Repuxos nos relógios
O maquinário range
Recebe óleo
Espirra óleo
Mão vomitadeira de
Enigmas enemas de azul  mofo sangue coalhado
Beija o sol-camaleão
Forja loas a ninguém
Vive bem ou finge
Serve manto aos pormenores
De calma infinita e bamba
Faz da alma
Lama
Não treme
Trama
Dá luz à uma palavra nova
Remonta um anagrama
Solta a mão
E ama

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A Bebeto

Hoje sonhei que violava montanhas com meus dedos de dinamite.
Desenhei um campo minado no crânio mole que tenho.
Lembrei de Bebeto deitando pedras no quintal, olhos de interdição.
"Escrever, é abrir buracos. Escrever é escavar"

"Escrever
Escavar
Escalar
Cavalar
Escavalar"

Bebeto



Meu mestre de poucos minutos e dois cigarros: viver é avarandar os olhos.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

A Euclides

É doce morrer no mar. Engolfado por um turbilhão de algas, massas frias e segredos. "Socorram o mundo que ele afoga". O corpo vem três vezes à superfície e verseja repentes novos. "Minha gente. Vou morar. No colo de Iemanjá." Mergulhado no infinito o sujeito costeia o tempo. Zomba de Shakespeare e da filosofia. O sujeito é e não é. O afogado afunda o mundo pra fora, desaguado em tsunamis. Aos animais serve de jardineiro. Pro mar é o demiurgo que se repete, acolhido com doce simplicidade. Aos homens se vale de alimento e carvão. Habita todas as rodas de cachaça, as noites vestidas de estrelas, o compasso grave nas margens dos barcos. Quem se muda pras águas verdes é eterno. Quem morre no mar, mais que o resto, vira verso.

dar bom dia é um privilégio breve

Acordo em uma cama de casal, imenso tatame onde caberia o mundo. Tenho a sorte rara de ser inaugurado por línguas de amor sincero. A vida abre as pernas, ajeita a anca e convida. Há de se evitar o desespero em se brotar pra dentro. Afinal, que fim leva quem nasce ao revés?



Me atravessa o oceano
Animal descalço e breve
Por canos e escapamentos
Me inunda de dentro pra fora
Eu derramado em mim
Derrubo penhascos
Me acoberto de vento
Descortino frutos
Transito entre flechas e apontadores
Mas da ponta aguda da minha língua
Não me traduzo
Senão estouro

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Ato final de um ciclope


O homem murcho
Com as galáxias frias
Do estômago mordisca
O centro da questão-constelação
E aguarda dormente
O descortinar da dança:
"Quanto tempo enfim
Até eu chegar a mim?"

Balés e panorâmicas


(ou caleidoscópio de Vigo)

O personagem se levanta. Acorda. Ou nasce? A janela enquadra a prosa. Telhas de amianto abrigam sexos, expiam poesias. Quanto tempo até chegar lá onde o sol se multiplica em infinitas corredeiras de luz? Um salto, um salto bem dado. Ou um verbo bem talhado. Os olhos moles, a boca aberta a baforar sonhos de caleidoscópio. O corpo duro de manhã sem nenhuma compensação que não o riso e o conforto de ainda ser.

A flor que acortina o universo dá pulinhos no colchão de suor e maracujá. Ângulos de Vigo, balé libertário de alegria em câmera lenta. A calcinha molhada baila no ar como uma bandeira de diamante. Reflete o calor do big bang. A seiva corre fluida, quente, viva. Suas memórias equilibradas num cesto de poesias e recursos cinematográficos.

O personagem olha o violão sem cordas. Batuca no alumínio que recorta o parapeito, lambe as superfícies da cidade. Tem clorofila na língua, mas a seiva endurece. Se alimenta de sol  e vive eclipsado. Personagem confuso. Coça a nuca. Arranca sangue. Cristais de poente.

As ruas sujas de passado não falam. Encaram, acusam, zombeteiam. Mas não falam. E o mundo que começou nos peitos de Jandira acabou nos chiados dos dentes. Quis versejar sobre o tempo, o sol, a luz. Tentou uma canção, um beijo no espelho, dois cafés, um hiato. Mas Vigo continuava a dirigir revoluções em seu fôlego. Comeu medicações como quem come deuses e foi pra cama dormir. O corpo amolecia.





segunda-feira, 2 de abril de 2012

Monólogo de um homem múltiplo

Quantas garrafas empilhamos sobre (nobres) desculpas esfarrapadas, sobre o velado sentimento de amor que nos une? Nos últimos anos eu bebi e bebi e bebi. E vocês, meus irmãos de caminhada, também estenderam seus copos. Os sorrisos emoldurados pelo vidro, os lábios roxos de vinho ou dourados de cerveja, os olhos brilhando de muda cumplicidade. Como eu os amei quando eramos uma só compilação de histórias novas, narrativas simples que teimosamente espiralávamos com o nosso desejo urgente de viver. Nosso desejo urgente de gargalhar, de experimentar, de ultrapassar as velocidades que nos ensinaram. Nosso desejo de destruir os ossos em colapsos ocasionais e infalíveis. Nossa ânsia de correr a cem, mil, um milhão de abraços e beijos por hora para nos espatifarmos no primeiro muro, de mãos dadas.

E como eu os amo agora, à distância. Como eu amo que continuemos a afundar o pé no acelerador, ainda que a velocidade da existência tenha sido reduzida a uma rotação\rotina\roteiro sem graça e injusta para personagens tão ricos e doces.

Quantos soluços escondemos sob nossas solas desgastadas? Mágoas que ora sim, ora também, explodiam de dentro dos tênis surrados só para serem caladas ao som de nosso trotar desarmônico. Pois nosso primeiro amor, essa mulher que dividimos fraternalmente e sem ciúmes, a Vida, nossa primeira paixão, exigia que calássemos as pequenezas da dor. Por isso choramos escondidos quando outras mulheres vieram nos habitar a boca e nos arrancaram a língua. Mas, emudecidos de tristeza e doçura, respondíamos ao peito exausto com os dentes escancarados e a voz rouca. Com a valentia e força de um sorriso que se reparte em tantos rostos, mas no fim é um só. O meu Deus maior. Minha filosofia. Meus iguais.

Receitas de amarelo ouro (ou Como servir um poeta-novilho)

Quem é agora?
A senhora gorda que prende galinhas sob panelões de alumínio
Tão grávida de histórias
Viúva de narrador (ou nasceu sem língua?)
Corre pra cima e pra baixo
Descabeçada
Ou é o bichinho que volteia o concreto batido ciscando a vida em corda bamba, prestes a cair no tapete fofo do quintal?
A matéria desesperada espalha penas e vermelho no branco amarronzado de uma cama de jasmim
Não lembro seu rosto, nem posso
Dona Augusta, imperatriz do galinheiro
Me observa por cima do muro
Lambe a dentadura
E espera a minha engorda
Seus cabelos coloridos de sol
Cochicham com as trepadeiras enroscadas na tarde
Tecem teias de ponteiro
Amarras de um fim que não me chega
Mas me agarra
“Teremos sopa de poeta
Um dia, um dia”
E a senhora gorda a pintar o chão
De sangue e histórias mudas

Fui cozido lentamente
Por ruelas e arranha-céus abarrotados de fantasmas
Que me tamparam em panelões de asfalto e ferro
E o monstro a me tacar pedras
A me abrir a testa
E a saliva que embola o ar
“Poeta ao molho pardo”
Eles não falham, mas eu tardo
Tem coisa mais clichê?

Mas é hora já de me jantar que as barrigas roncam
É hora já
Ainda que insosso
De servir o moço
Num só bolo de palavras
Me assento numa bacia de cobre
Novo e sem valor
Me visto de sal e fornalha
Mordo uma maçã
Não inocentemente
Mordo uma maçã e espero as garfadas
Mordo uma maçã

Eis uma sugestão de como se comer o poeta-novilho
Por favor, comecem do esôfago
(Sempre sempre recheado)
Depois chupem meu peito
Com canudos de açúcar
Tirem pequenas lascas com os dentes
E o engulam feito uma ostra
(mas devagar, por favor, devagar
Vou escorrer dentro de vocês
Me alojar nos estômagos
Para finalmente, rezem comigo, viajar até suas nucas
E sussurrar canções de um novo tempo)
Só de peito e esôfago alimentaria um compêndio de áfricas ou chinas
Mas se ainda tiverem fome
Ou se o desejo de me despedaçar feito um frango de padaria for maior que vocês
Então lambam meus olhos como duas bolas de sorvete
Prometo derreter em seus beiços de terremoto
Só doçura e afeto
E quando chorarem serei eu escorrendo
Guardem minhas mãos enroladas em gaze fina
No meio de suas roupas ou penduradas no retrovisor do carro
Tantos perfumes virão delas que nem eu posso acertar
Então roam demoradamente meus pés
(há tanta história ali)
Fritem minhas bolas e meu pau com canela e açúcar
E se quiserem
Mastiguem meu cérebro cru
Não por muito tempo ou se enjoam
 (Deem pros cachorros!)
Por fim, um pedido,
Deixem-me cá um bom pedaço de boca em paz
Que ela já foi
Mastigada tantas vezes
Mas eu ainda
Quero
Mais