segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Balés e panorâmicas
(ou caleidoscópio de Vigo)
O personagem se levanta. Acorda. Ou nasce? A janela enquadra a prosa. Telhas de amianto abrigam sexos, expiam poesias. Quanto tempo até chegar lá onde o sol se multiplica em infinitas corredeiras de luz? Um salto, um salto bem dado. Ou um verbo bem talhado. Os olhos moles, a boca aberta a baforar sonhos de caleidoscópio. O corpo duro de manhã sem nenhuma compensação que não o riso e o conforto de ainda ser.
A flor que acortina o universo dá pulinhos no colchão de suor e maracujá. Ângulos de Vigo, balé libertário de alegria em câmera lenta. A calcinha molhada baila no ar como uma bandeira de diamante. Reflete o calor do big bang. A seiva corre fluida, quente, viva. Suas memórias equilibradas num cesto de poesias e recursos cinematográficos.
O personagem olha o violão sem cordas. Batuca no alumínio que recorta o parapeito, lambe as superfícies da cidade. Tem clorofila na língua, mas a seiva endurece. Se alimenta de sol e vive eclipsado. Personagem confuso. Coça a nuca. Arranca sangue. Cristais de poente.
As ruas sujas de passado não falam. Encaram, acusam, zombeteiam. Mas não falam. E o mundo que começou nos peitos de Jandira acabou nos chiados dos dentes. Quis versejar sobre o tempo, o sol, a luz. Tentou uma canção, um beijo no espelho, dois cafés, um hiato. Mas Vigo continuava a dirigir revoluções em seu fôlego. Comeu medicações como quem come deuses e foi pra cama dormir. O corpo amolecia.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário