Que faz você, pedra, na Era do Degelo? Escalando minha nuca, rente ao precipício, te vi cravada nas horas. Era uma lança de gelo azul como todas as outras da cadeia pontiaguda de montanhas. Você, múmia congelada, revelando um passado de homens nus, sem parreiras, um carnaval de estreias antigas.Você, besta extinta, ainda me assombrando os caminhos.
Que faz você que margeia todos meus despenhadeiros? Me empurra? Força um tropeço? Adorna o lugar com meu grito e desassossego? Ou vai me tomar nos braços e dizer que me ama pela milésima vez? Repetir desculpas, golpear a cabeça contra o mundo, ameaçar um passo em falso?
O brilho dourado de uma Shangri-lá nos cartões postais e no fundo dos olhos traceia o cenário. Por que entre tanto e tudo só você me aparece congelada bordeando buracos negros? Aponta pro alto, agulha remota, sem norte. Se te sigo caio.
Quebrei você em mil. Arrebentei tua cara, tuas mãos, teus peitos, tua respiração. E você se deitou comigo, acendeu abajures, aninhou cantigas enquanto o mundo florescia fogueiras. Entrei de novo no único templo que respeito e louvo. Eu fiel\devoto\santo, excomungado. Mas mais uma vez eramos quimera, frágil e completa.
E como está magra e linda! Tão pequena e quente! Te fiz com doçura e delicadeza, feito um mar bombardeado. Suja, queima, cega, mas responde orquestra de trombones e cometas, orquídeas e assombros. Depois você dormiu, me encostou a bunda como sempre fez, puxou minha mão pros teus peitos e calou meu nome entre segredos. Te ajeitei num canto, nunca acordada.
De resto soprei cascalho e reza montanha abaixo: neva, por favor, neva.
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