terça-feira, 30 de abril de 2013

escravação


a pele -
          ser antro de histórias -
há de ser a pele
lesmas línguas
          - que é no molhado
          que é onde o germe -
boca onde o verbo escorre
e nasce palavra
e morre
que é onde o outro
onde o olho
do orifício
onde o solto o salto
o sacrifício
inauguram oceanos
e estrangeirismos
que é onde eu te metalínguo
e tu me hiper-bole
dos sais que mineramos

terça-feira, 16 de abril de 2013

aquarela

quando morrer
e o tempo exigir
a desova combinada
(nas dobras da minha língua
e pensamentos)
nascerão
do meu olho
de minhas viscosidades
nascerão
multidões de passarinhos
piarão
multidões de passarinhos
voarão
multidões muralhas mosaicos
de passarinhos
que pra fora de suas asas
morarão em mim
e então
e tão somente então
serei casa
e ossada
de estrelas serei
serei terra
germinando
germinando
germinando
despudoradamente
o azul

mira acolá

o amor
é minima
e infinitamente
essa capacidade de perceber
azuis

domingo, 14 de abril de 2013

deus - nós - ora

a língua ser
água
a boca
os vincos as dobras
o tronco a fruta
a flor o vão
sementes sementes sementes
o olho ser
água
e oceanos dos ossos
e casa do inabitável
memória de
quando e quens e quês
o suado
o engolido
o guardado entre os bolsos da pele
ôcaso escondido
nascentes
o beijo
(milagre
milagre
MILAGRE
é tocar onde o outro
molha)
vou ficar mais deus:

eu,
meu coração
e o resto
de nada

terça-feira, 9 de abril de 2013

a conquista do fogo

quando a chuva trouxe
às tantas horas de inverno daquela terra esquecida
entre montanhas mineiras
e trançados de seiva centenária
qualquer coisa de
conversas de cachorros
promessas de verde
nesgas do princípio escuro
       escuro mais que escuro
fêz-se alvoroço entre os homens
velas foram desenterradas
baterias inauguradas
lanternas reveladas
e propostas de calor timidaram engolfadas de silêncio
tudo muito maquinal muito decente muito eficiente
só Tiquinho atentou dar palavra no jardim
como que soubesse encontrar
um montão assim de vagalume
fazendo natal nas árvores
zombando dos homens que virilhavam pelas quinas
num zum zum calado
como estrelas caidas do teto
provando que luz
é presente de inseto

segunda-feira, 8 de abril de 2013

o sem remédio fundamental

antes
de pousar
a coisa de asas abertas de olhos
esbugalhados
a flácida coisa sem poros
brotando no torto
na bunda de um inseto
nascente do reto
dos pilares de mármore
dos restolhos de cobre e sinapses e
estações lunares
antes
especialmente
antes
ciscava a coisa vastidões
de promessa

agora a mão espalmada em veias e labirintos
era sem caber a coisa
era sem cabimento sem
carimbo ou verbo
ou braços
nem colchões quarando línguas de sol e gelos e teleféricos rotos
agora era a mão torta como nossos corpos bichos sem razão
ou nem quando
e nem quase
ou como só de olhos e bocas tentamos guardar reservas de alturas
e tesouros
ou um punhado qualquer de luz
que, desentendíamos,
escasseava

e sem poder a coisa
pousar noutra sobra outro bocejo
arranjou de vir assim tão pesada
tão pra antes
apressada balançando as janelas
sugando pupilas em segredo
que foi me carregando de montanhas e ilhas e
explosões solares

fiquei irremediável
todinho perdido de insetos quando chove mijo ou fogo
e a coisa desorientada de garras
cravada no fundo no infinito nas horas
em fendas afogadas de palavras e verbos
e beijos
e que não levam a lugar
nem a quem
e a coisa e me gritar:
ninguém

segunda-feira, 1 de abril de 2013