domingo, 26 de maio de 2013

..

me tormentas
ternuras
e molemente sou
- estar água é amar? -
me afogas
de dedos
demolho muito
- sou crescido de mares
mas só deságuo por doçumes -
ribeira em mim labirintifica
se teus sagrados
me pantaneiam
-
guardei um segredo no molhado:
ando em fins
de oceano


sábado, 25 de maio de 2013

sexta-feira, 24 de maio de 2013

todo poeta nasce de um estupro

ali no miolinho das folhas
desabrochava o vermelho
o verde maduro
e aquele fedor
de balões e estouros no céu de junho
tanto amarelo escorrendo
mudo
em tudo
nas mãos sujas
nas casas abandonadas
na ferrugem do portão
por entre meus cabelos
- escondia-se do azul
eterno?
desaguava em mim
enfim? -
o papel manchado
de línguas
flores
falares
- pode a palavra
palavra afogar? -
o mundo lubrificado
e eu penetrava
- ou ocaso era o verbo? -
eu acaso
me atravessava?

terça-feira, 7 de maio de 2013

o velho escondia no bolso
a orelha de van gogh
maneira que
cheirava a aquarelas
tinha um fedor de azul
tão forte de azul
tão estragado de azul
que mal podia ouvir o sol
coado nas folhas as tralhas
a solidez do sal, cristal
os insetos trepando no seu ombro pincelado de passarinhos
ou a boca desabrochada - buraco encharcado de silêncio -
bastava esse pouco
esse nada
que o bolso do velho
molhava

quinta-feira, 2 de maio de 2013

ex-preguiça

entretanto
a água passa

depois de esquecido o amor
no cesto de roupas sujas
nas fendas do assoalho
nas esquinas dos móveis

depois dos dedos contados
e recontados
num levantamento centopéico
das marcações
no couro

depois de trocado o ouro
por cachos de bananas
ou quinquilharias
nas trilhas finais das feiras
que é onde o resto floresce e aguarda

depois de dobrada a farda
e ferrada a fera
a água passa

e o campo
entre tantos
espreguiça
a primavera