segunda-feira, 2 de abril de 2012

Monólogo de um homem múltiplo

Quantas garrafas empilhamos sobre (nobres) desculpas esfarrapadas, sobre o velado sentimento de amor que nos une? Nos últimos anos eu bebi e bebi e bebi. E vocês, meus irmãos de caminhada, também estenderam seus copos. Os sorrisos emoldurados pelo vidro, os lábios roxos de vinho ou dourados de cerveja, os olhos brilhando de muda cumplicidade. Como eu os amei quando eramos uma só compilação de histórias novas, narrativas simples que teimosamente espiralávamos com o nosso desejo urgente de viver. Nosso desejo urgente de gargalhar, de experimentar, de ultrapassar as velocidades que nos ensinaram. Nosso desejo de destruir os ossos em colapsos ocasionais e infalíveis. Nossa ânsia de correr a cem, mil, um milhão de abraços e beijos por hora para nos espatifarmos no primeiro muro, de mãos dadas.

E como eu os amo agora, à distância. Como eu amo que continuemos a afundar o pé no acelerador, ainda que a velocidade da existência tenha sido reduzida a uma rotação\rotina\roteiro sem graça e injusta para personagens tão ricos e doces.

Quantos soluços escondemos sob nossas solas desgastadas? Mágoas que ora sim, ora também, explodiam de dentro dos tênis surrados só para serem caladas ao som de nosso trotar desarmônico. Pois nosso primeiro amor, essa mulher que dividimos fraternalmente e sem ciúmes, a Vida, nossa primeira paixão, exigia que calássemos as pequenezas da dor. Por isso choramos escondidos quando outras mulheres vieram nos habitar a boca e nos arrancaram a língua. Mas, emudecidos de tristeza e doçura, respondíamos ao peito exausto com os dentes escancarados e a voz rouca. Com a valentia e força de um sorriso que se reparte em tantos rostos, mas no fim é um só. O meu Deus maior. Minha filosofia. Meus iguais.

Receitas de amarelo ouro (ou Como servir um poeta-novilho)

Quem é agora?
A senhora gorda que prende galinhas sob panelões de alumínio
Tão grávida de histórias
Viúva de narrador (ou nasceu sem língua?)
Corre pra cima e pra baixo
Descabeçada
Ou é o bichinho que volteia o concreto batido ciscando a vida em corda bamba, prestes a cair no tapete fofo do quintal?
A matéria desesperada espalha penas e vermelho no branco amarronzado de uma cama de jasmim
Não lembro seu rosto, nem posso
Dona Augusta, imperatriz do galinheiro
Me observa por cima do muro
Lambe a dentadura
E espera a minha engorda
Seus cabelos coloridos de sol
Cochicham com as trepadeiras enroscadas na tarde
Tecem teias de ponteiro
Amarras de um fim que não me chega
Mas me agarra
“Teremos sopa de poeta
Um dia, um dia”
E a senhora gorda a pintar o chão
De sangue e histórias mudas

Fui cozido lentamente
Por ruelas e arranha-céus abarrotados de fantasmas
Que me tamparam em panelões de asfalto e ferro
E o monstro a me tacar pedras
A me abrir a testa
E a saliva que embola o ar
“Poeta ao molho pardo”
Eles não falham, mas eu tardo
Tem coisa mais clichê?

Mas é hora já de me jantar que as barrigas roncam
É hora já
Ainda que insosso
De servir o moço
Num só bolo de palavras
Me assento numa bacia de cobre
Novo e sem valor
Me visto de sal e fornalha
Mordo uma maçã
Não inocentemente
Mordo uma maçã e espero as garfadas
Mordo uma maçã

Eis uma sugestão de como se comer o poeta-novilho
Por favor, comecem do esôfago
(Sempre sempre recheado)
Depois chupem meu peito
Com canudos de açúcar
Tirem pequenas lascas com os dentes
E o engulam feito uma ostra
(mas devagar, por favor, devagar
Vou escorrer dentro de vocês
Me alojar nos estômagos
Para finalmente, rezem comigo, viajar até suas nucas
E sussurrar canções de um novo tempo)
Só de peito e esôfago alimentaria um compêndio de áfricas ou chinas
Mas se ainda tiverem fome
Ou se o desejo de me despedaçar feito um frango de padaria for maior que vocês
Então lambam meus olhos como duas bolas de sorvete
Prometo derreter em seus beiços de terremoto
Só doçura e afeto
E quando chorarem serei eu escorrendo
Guardem minhas mãos enroladas em gaze fina
No meio de suas roupas ou penduradas no retrovisor do carro
Tantos perfumes virão delas que nem eu posso acertar
Então roam demoradamente meus pés
(há tanta história ali)
Fritem minhas bolas e meu pau com canela e açúcar
E se quiserem
Mastiguem meu cérebro cru
Não por muito tempo ou se enjoam
 (Deem pros cachorros!)
Por fim, um pedido,
Deixem-me cá um bom pedaço de boca em paz
Que ela já foi
Mastigada tantas vezes
Mas eu ainda
Quero
Mais