Re
Vou ver
Tudo
Rec:
"O,
Merda,
Festa"
Cabe o mundo
O que rompe
E o que resta
----x----
Milloriando para fins didáticos
É tanto apocalipse e salvação
Que já ninguém me convence
De que hoje os tubos não são
Nossa única religião
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Mamutes e Yetis (sonho oitavo)
Que faz você, pedra, na Era do Degelo? Escalando minha nuca, rente ao precipício, te vi cravada nas horas. Era uma lança de gelo azul como todas as outras da cadeia pontiaguda de montanhas. Você, múmia congelada, revelando um passado de homens nus, sem parreiras, um carnaval de estreias antigas.Você, besta extinta, ainda me assombrando os caminhos.
Que faz você que margeia todos meus despenhadeiros? Me empurra? Força um tropeço? Adorna o lugar com meu grito e desassossego? Ou vai me tomar nos braços e dizer que me ama pela milésima vez? Repetir desculpas, golpear a cabeça contra o mundo, ameaçar um passo em falso?
O brilho dourado de uma Shangri-lá nos cartões postais e no fundo dos olhos traceia o cenário. Por que entre tanto e tudo só você me aparece congelada bordeando buracos negros? Aponta pro alto, agulha remota, sem norte. Se te sigo caio.
Quebrei você em mil. Arrebentei tua cara, tuas mãos, teus peitos, tua respiração. E você se deitou comigo, acendeu abajures, aninhou cantigas enquanto o mundo florescia fogueiras. Entrei de novo no único templo que respeito e louvo. Eu fiel\devoto\santo, excomungado. Mas mais uma vez eramos quimera, frágil e completa.
E como está magra e linda! Tão pequena e quente! Te fiz com doçura e delicadeza, feito um mar bombardeado. Suja, queima, cega, mas responde orquestra de trombones e cometas, orquídeas e assombros. Depois você dormiu, me encostou a bunda como sempre fez, puxou minha mão pros teus peitos e calou meu nome entre segredos. Te ajeitei num canto, nunca acordada.
De resto soprei cascalho e reza montanha abaixo: neva, por favor, neva.
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
No fim é. Só que nasce e transfigura.
Atravessei a parede como quem rompe manhãs brancas. Sem sucesso. Tentei os dentes, depois as mãos, as palavras, os dedos, os olhos. Pedi, tentei, forcei, seduzi - dia, me carregue pro diabo que me parta ou me complete! - mas tem hora que o mundo é só saliva. Te escorrega, passa. E o que dói é perceber. Do lado de fora o sol martelava minha janela - urge viver, porra! - e eu a mastigar planos e projetos que me escapavam pelo travesseiro.
Levantei exatas quatro vezes. Na primeira me convidei prum café com o bom verdejar de sementes molhadas. Mastiguei sem ser. Sem tesão, sem dureza, sem gozo, só a fermata das horas e nada que me justificasse. Dancei a culpa do corpo, velhos passos que me fogem e confundem. Pisei no vento com pegadas moles, outonais, asmáticas. E isso ele não respeita - e respeito eu?. Me derrubou no chão, nas sombras da manhã, nas mesmas novidades dos jornais, nas mesmas ofensas dos vizinhos, os mesmos latidos dos cachorros.
Tentei ainda outras vezes. O sol seguia se embrenhando nos tijolos e fios de cabelo. Invadia minhas janelas, se deitava na minha cama. Revelou pequeninos circos de seu corpo como a voltagem das coxas que se denuncia por baixo das saias. Tem hora certa pra levantar a roupa, baixar estrelas, explodir o universo. O sol sabe disso, muito mais mulher que a Lua. Dá vida, esquenta, lambe, maltrata, queima, acolhe, gera, come, mata. Mais mulher que a Lua.
Mas me lembro de que o Sol é Sol. E que a Lua é Lua. E eu: varal, arame retesado, risco mínimo no infinito. Mas me traio ou me engano. Assim como rascunhei numa próxima peça um personagem que busca conforto embrutecendo o mundo. Mas o personagem sabe que mente, a poesia vive e arromba os olhos: "Deem a essa cidade o nome de cidade \ e a mim me chamem homem, me cabe \ mas aquela mulher que dorme sonhos de adoração\ aquela que me esquenta a cama e esfria as mãos \ aquela que é paradoxo\ verdes \ tardes \ poesia \ ela seguirá indizível".
Quis tanto firmar as pernas, encher mochila, desbravar narrativas. Pensei vales, fendas, acordes maiores, boca cheia. Pensei Minas e seus mistérios. Mas segui cravado em mim. E me odiei como sempre odeio quando tenho o corpo descansado na noite alta. Me enche os olhos quem conta histórias. Me enche os olhos quem vive histórias. E não fiz nada no dia de hoje. Nem tinha peça, nem produto, nem arte, cimentado em mim, olhos sem brilho .
No fim das contas o dia foi dia. Os cachorros seguiram cachorros. Os carros passaram esbaforidos e acelerados como todos os carros. Os passarinhos cantaram as mesmas canções, o violão vibrou as mesmas notas, a boca repetiu as mesmas palavras. Tudo igual, um dia inútil. Mas me traio ou me engano. O sol, mulher cheia de artifícios, baixou as luzes, coloriu de roxo o mundo cinza e explodiu damas-da-noite em versos. E minha parede rebentada em poemas, sorrisos e garantias.
domingo, 26 de agosto de 2012
A Daniela
Pequena, perdoa se te escondo
Na última réstia das gavetas
Quando a luz já não sabe
Se é prenda ou mordida
Na teta escura da vida
Quando a luz já não sabe
Se cega ou se segue
Jantando juntando moendo
Poeira
Na última réstia das gavetas
Quando a luz já não sabe
Se é prenda ou mordida
Na teta escura da vida
Quando a luz já não sabe
Se cega ou se segue
Jantando juntando moendo
Poeira
sábado, 25 de agosto de 2012
Cagaço
Cozinha-se uma estrela
Nos sambas e lotações -
Mesmo que muito esforço se faça
Nos postais, aviões, quebra-mares
A borracha consumida
Some
Some
Lá fora os home titubeia
Avança, bufa, pinta
A rocha mole da bochecha
O beiço murcho de amarelo
Miúdos olhos de marola
Deita sombra nos fotogramas
Espalma o tremelicar dos dedos
Entronca, retalha
Horizontes foguetes balões temporais
de azul
Cheiro doce de menina
Varre a luz esparramada
Dinamita pomares
Engole brotos e flores
Carneirinhos vaquinhas placentas
Verde inconclusão
Mas quando explode o cheiro
De um sorriso sereno
Vacila
Rôta e fraca a borracha
Os homi em segredo
Se caga de medo
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
terça-feira, 21 de agosto de 2012
De quando a musa não vem
Queria a falange, muito dura e tesa,
Abrandasse a represa, moenda de
Bordados bocas baques beija-flores solidão
Mas tua voz escoa
Silêncio
E tudo em volta voa
Palácios de tijolo molhado
Voam
Pardais costurados de varais
Voam
A carne nova, a carne velha
Voam
Saturno cortinas apartamentos
Tinturas condimentos luares
Partituras poentes paredes pomares
Alumbramento
Só o verbo não
domingo, 19 de agosto de 2012
Comer é esfomear-se (sonho segundo)
Jantávamos os quatro. Meu irmão, muda solidez, sorriso de goiabada. Eu, jardim suspenso, adormecido ao som da madeira, ao cheiro do sol queimando o horizonte. A cadela volteava entre as cadeiras, edificava as horas, a bocarra cheia de tempo. A cadela sabia. Veio me lamber os olhos e o céu da boca. Fez-me festa nas orelhas. Abanei o rabo, gentil compreensão.
O pombo brincava de gato e me roçava as asas. Taquei-lhe um enigma. Curvou o pescoço, gratidão de passarinho. Bicou, mastigou, umedeceu, cuspiu. Abri a boca, dava-me o que comer.
Do dia ainda vivo nasceram pernas minhas. Retirei-me. Não sem antes agradecer, braços abertos, a azul cumplicidade disposta na mesa. Caminhei pelos retratos, marchas de elefante. Botei os olhos de molho, lavei as costuras das mãos, torci o pulmão. Pintei as paredes da casa a golpes de facão. Interiores. Cobri as portas de limpa cor sabão de coco. Como se o resto não mais fosse. Mas lá fora chovia.
O pombo brincava de gato e me roçava as asas. Taquei-lhe um enigma. Curvou o pescoço, gratidão de passarinho. Bicou, mastigou, umedeceu, cuspiu. Abri a boca, dava-me o que comer.
Do dia ainda vivo nasceram pernas minhas. Retirei-me. Não sem antes agradecer, braços abertos, a azul cumplicidade disposta na mesa. Caminhei pelos retratos, marchas de elefante. Botei os olhos de molho, lavei as costuras das mãos, torci o pulmão. Pintei as paredes da casa a golpes de facão. Interiores. Cobri as portas de limpa cor sabão de coco. Como se o resto não mais fosse. Mas lá fora chovia.
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
Ofício
Recua o gesto
Cadeia de intenções
Tensões
Tendões
Tantos poréns enrodilhados de
Repuxos nos relógios
O maquinário range
Recebe óleo
Espirra óleo
Mão vomitadeira de
Enigmas enemas de azul mofo sangue coalhado
Beija o sol-camaleão
Forja loas a ninguém
Vive bem ou finge
Serve manto aos pormenores
De calma infinita e bamba
Faz da alma
Lama
Não treme
Trama
Dá luz à uma palavra nova
Remonta um anagrama
Solta a mão
E ama
Cadeia de intenções
Tensões
Tendões
Tantos poréns enrodilhados de
Repuxos nos relógios
O maquinário range
Recebe óleo
Espirra óleo
Mão vomitadeira de
Enigmas enemas de azul mofo sangue coalhado
Beija o sol-camaleão
Forja loas a ninguém
Vive bem ou finge
Serve manto aos pormenores
De calma infinita e bamba
Faz da alma
Lama
Não treme
Trama
Dá luz à uma palavra nova
Remonta um anagrama
Solta a mão
E ama
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
A Bebeto
Hoje sonhei que violava montanhas com meus dedos de dinamite.
Desenhei um campo minado no crânio mole que tenho.
Lembrei de Bebeto deitando pedras no quintal, olhos de interdição.
"Escrever, é abrir buracos. Escrever é escavar"
"Escrever
Escavar
Escalar
Cavalar
Escavalar"
Bebeto
Meu mestre de poucos minutos e dois cigarros: viver é avarandar os olhos.
Desenhei um campo minado no crânio mole que tenho.
Lembrei de Bebeto deitando pedras no quintal, olhos de interdição.
"Escrever, é abrir buracos. Escrever é escavar"
"Escrever
Escavar
Escalar
Cavalar
Escavalar"
Bebeto
Meu mestre de poucos minutos e dois cigarros: viver é avarandar os olhos.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
A Euclides
É doce morrer no mar. Engolfado por um turbilhão de algas, massas frias e segredos. "Socorram o mundo que ele afoga". O corpo vem três vezes à superfície e verseja repentes novos. "Minha gente. Vou morar. No colo de Iemanjá." Mergulhado no infinito o sujeito costeia o tempo. Zomba de Shakespeare e da filosofia. O sujeito é e não é. O afogado afunda o mundo pra fora, desaguado em tsunamis. Aos animais serve de jardineiro. Pro mar é o demiurgo que se repete, acolhido com doce simplicidade. Aos homens se vale de alimento e carvão. Habita todas as rodas de cachaça, as noites vestidas de estrelas, o compasso grave nas margens dos barcos. Quem se muda pras águas verdes é eterno. Quem morre no mar, mais que o resto, vira verso.
dar bom dia é um privilégio breve
Acordo em uma cama de casal, imenso tatame onde caberia o mundo. Tenho a sorte rara de ser inaugurado por línguas de amor sincero. A vida abre as pernas, ajeita a anca e convida. Há de se evitar o desespero em se brotar pra dentro. Afinal, que fim leva quem nasce ao revés?
Me atravessa o oceano
Animal descalço e breve
Por canos e escapamentos
Me inunda de dentro pra fora
Eu derramado em mim
Derrubo penhascos
Me acoberto de vento
Descortino frutos
Transito entre flechas e apontadores
Mas da ponta aguda da minha língua
Não me traduzo
Senão estouro
Me atravessa o oceano
Animal descalço e breve
Por canos e escapamentos
Me inunda de dentro pra fora
Eu derramado em mim
Derrubo penhascos
Me acoberto de vento
Descortino frutos
Transito entre flechas e apontadores
Mas da ponta aguda da minha língua
Não me traduzo
Senão estouro
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Ato final de um ciclope
O homem murcho
Com as galáxias frias
Do estômago mordisca
O centro da questão-constelação
E aguarda dormente
O descortinar da dança:
"Quanto tempo enfim
Até eu chegar a mim?"
Balés e panorâmicas
(ou caleidoscópio de Vigo)
O personagem se levanta. Acorda. Ou nasce? A janela enquadra a prosa. Telhas de amianto abrigam sexos, expiam poesias. Quanto tempo até chegar lá onde o sol se multiplica em infinitas corredeiras de luz? Um salto, um salto bem dado. Ou um verbo bem talhado. Os olhos moles, a boca aberta a baforar sonhos de caleidoscópio. O corpo duro de manhã sem nenhuma compensação que não o riso e o conforto de ainda ser.
A flor que acortina o universo dá pulinhos no colchão de suor e maracujá. Ângulos de Vigo, balé libertário de alegria em câmera lenta. A calcinha molhada baila no ar como uma bandeira de diamante. Reflete o calor do big bang. A seiva corre fluida, quente, viva. Suas memórias equilibradas num cesto de poesias e recursos cinematográficos.
O personagem olha o violão sem cordas. Batuca no alumínio que recorta o parapeito, lambe as superfícies da cidade. Tem clorofila na língua, mas a seiva endurece. Se alimenta de sol e vive eclipsado. Personagem confuso. Coça a nuca. Arranca sangue. Cristais de poente.
As ruas sujas de passado não falam. Encaram, acusam, zombeteiam. Mas não falam. E o mundo que começou nos peitos de Jandira acabou nos chiados dos dentes. Quis versejar sobre o tempo, o sol, a luz. Tentou uma canção, um beijo no espelho, dois cafés, um hiato. Mas Vigo continuava a dirigir revoluções em seu fôlego. Comeu medicações como quem come deuses e foi pra cama dormir. O corpo amolecia.
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