Atravessei a parede como quem rompe manhãs brancas. Sem sucesso. Tentei os dentes, depois as mãos, as palavras, os dedos, os olhos. Pedi, tentei, forcei, seduzi - dia, me carregue pro diabo que me parta ou me complete! - mas tem hora que o mundo é só saliva. Te escorrega, passa. E o que dói é perceber. Do lado de fora o sol martelava minha janela - urge viver, porra! - e eu a mastigar planos e projetos que me escapavam pelo travesseiro.
Levantei exatas quatro vezes. Na primeira me convidei prum café com o bom verdejar de sementes molhadas. Mastiguei sem ser. Sem tesão, sem dureza, sem gozo, só a fermata das horas e nada que me justificasse. Dancei a culpa do corpo, velhos passos que me fogem e confundem. Pisei no vento com pegadas moles, outonais, asmáticas. E isso ele não respeita - e respeito eu?. Me derrubou no chão, nas sombras da manhã, nas mesmas novidades dos jornais, nas mesmas ofensas dos vizinhos, os mesmos latidos dos cachorros.
Tentei ainda outras vezes. O sol seguia se embrenhando nos tijolos e fios de cabelo. Invadia minhas janelas, se deitava na minha cama. Revelou pequeninos circos de seu corpo como a voltagem das coxas que se denuncia por baixo das saias. Tem hora certa pra levantar a roupa, baixar estrelas, explodir o universo. O sol sabe disso, muito mais mulher que a Lua. Dá vida, esquenta, lambe, maltrata, queima, acolhe, gera, come, mata. Mais mulher que a Lua.
Mas me lembro de que o Sol é Sol. E que a Lua é Lua. E eu: varal, arame retesado, risco mínimo no infinito. Mas me traio ou me engano. Assim como rascunhei numa próxima peça um personagem que busca conforto embrutecendo o mundo. Mas o personagem sabe que mente, a poesia vive e arromba os olhos: "Deem a essa cidade o nome de cidade \ e a mim me chamem homem, me cabe \ mas aquela mulher que dorme sonhos de adoração\ aquela que me esquenta a cama e esfria as mãos \ aquela que é paradoxo\ verdes \ tardes \ poesia \ ela seguirá indizível".
Quis tanto firmar as pernas, encher mochila, desbravar narrativas. Pensei vales, fendas, acordes maiores, boca cheia. Pensei Minas e seus mistérios. Mas segui cravado em mim. E me odiei como sempre odeio quando tenho o corpo descansado na noite alta. Me enche os olhos quem conta histórias. Me enche os olhos quem vive histórias. E não fiz nada no dia de hoje. Nem tinha peça, nem produto, nem arte, cimentado em mim, olhos sem brilho .
No fim das contas o dia foi dia. Os cachorros seguiram cachorros. Os carros passaram esbaforidos e acelerados como todos os carros. Os passarinhos cantaram as mesmas canções, o violão vibrou as mesmas notas, a boca repetiu as mesmas palavras. Tudo igual, um dia inútil. Mas me traio ou me engano. O sol, mulher cheia de artifícios, baixou as luzes, coloriu de roxo o mundo cinza e explodiu damas-da-noite em versos. E minha parede rebentada em poemas, sorrisos e garantias.
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