terça-feira, 16 de janeiro de 2024

deve-se começar um poema com calma
e ódio

como quem domina o assunto
e é por ele dominado

e já atravessou esfinges
e mascou tijolos
e afiou os dentes
e sobreviveu a infinitas entrevistas de emprego

e

alguém te olha

e te continua
poema

alguém te avança

e te dança
poema

alguém te rasga

e te engasga
poema

o poema-bailarino
corta o dia
como um liquidificador aberto
sofre ele de terremotos
pequenas mortes
e grand-pliés
parte da diferença de voltagem
para voltear
todo oco e margem
colhendo no bico
o que não cabe nos olhos

e se cansa mais
cedo do que tarde

e foge enfim o poema-ave

raro e grave
trinando infinito
acima e adentro
de quem furioso e calmo
o sussurava a grito