nada além de asas
se movimenta no azul opaco
encruado nas vestes do Rio de Janeiro
que em dias de sóis escondidos entre
prédios
velas
árvores imóveis,
dias de ventos
cansados e escorregadios
e especialmente
dias de domingo sem festa
sai pra verificar a ordenação das coisas
por um segundo cala-se
a boca do mundo
por um momento e pra sempre
carrega-se o ventre da mudez,
ancestral totêmico dos surdos
e dos catadores de latões e peneiras
e pentes gastos, garfos, goteiras,
e fendas e fugas, fogueiras,
percorrente anterior de terras nuas
e línguas pardacentas
deito meu corpo que se acama de
cabelos presenteados por cabeças que adivinho
pela pratica de aprender tamanhos e lisuras
e tamanheço e lisuro e desconheço
os desenho da fumaça
a fumaça que imoldável
foge da concretude do meu cigarro
e deixa cinzas desmanchadas no parapeito da minha janela do nono andar
cinzas brancas
cinzas pretas
cinzassinzas,
mas
ainda e porém e sempre
únicas além das asas
a negar a deslizura
desse fim de astro
ondulado no vestido da cidadessilêncio
sobrevoando o mosto fermentado
dos sonhos fluminenses
sábado, 16 de março de 2013
quinta-feira, 14 de março de 2013
a fome
quando meu famintocorpo
baba enraivecido que não
que nem e
que nunca abstrações ou fábulas
reclamando pelo oco dos meus ouvidos
ouvidúteros deflorados num
mal-me-quer-bem-me-quer-não-qué-tem-quem-queira
choramingando descalabrado
que ser corpo cansa
esse corpossonso carcomido
de brutalidades e sopros
extrato grosso e raso e entre
tensionado de calor e noites
entre mantos entre
caldos e milassaltos de viscosidade e cuspe
entretantos e ninguéns
me escoro sobre panelas e ebulições
pacotes coloridos, comidas instantâneas
e num canto qualquer em que escapa o eu-objeto
observo nos vãos que o macarrão barato esconde
a água se consumindo e se condensando
ponto pré-bigue-benguiano
concentrado, pleno, prenho
espaço de esquecimento por onde vagam bolhas insandecidas
águanautas buscando um não sei o quê
entre choques e explosões, navegando em
água que vira água quanto menos água houver
e eu cá de dentro
vejo meu corpo faminto
evaporando-se
sumindo o corpo do corpo
tornando à condição inicial de ser mais
quanto menos
domingo, 10 de março de 2013
Ocatopuci
a oca
capta
o talo
orna-se
a captá-lo, ôca,
rende-se, cia
ocorrencia-se
breve
grave
brava
grava
engravida-lo
enrepresa-se
absoluta-lo
rompe-se
ôca e cheia
é sem sabê-lo
fome e ceia
capta
o talo
orna-se
a captá-lo, ôca,
rende-se, cia
ocorrencia-se
breve
grave
brava
grava
engravida-lo
enrepresa-se
absoluta-lo
rompe-se
ôca e cheia
é sem sabê-lo
fome e ceia
sábado, 9 de março de 2013
sexta-feira, 1 de março de 2013
vértebra zero - fragmentos de cidade
na esquina da cidade
abre-se uma boca do chão
e no fundo de uma fossa
séptica
os homens comungam
lírios coloridos
aparições
vaga-lumes cegos
fechaduras prenhas de réstias
e ali mesmo inauguram uma espécie de comércio
ancestral
vendem olhos e frescores
cores de sol e pólvora
vendem peles de azul
arranjos matemáticos
novas composições pro alfabeto
ou
emprestam atalhos para
o ventre da terra preta
da lama
na cama de merda que
ilumina
na extrato fera que
espreita e saliva entre silêncios guardados
/ no vão dos ouvidos
prometem terras e carneiros
banquetes de seios rosas e úteros
e vaginas molhadas feito terra
ardendo feito estrelas
no justo escambo por
verbos virgens
palavras verdes
argila tão mole quanto as paredes decoradas
de insetos negros e escorregadios
em que se apoiam com prazer e medo
mas os bueiros são entupidos
não escapam
os bueiros também rejeitam promessas
os bueiros também rejeitam plutônios
os bueiros também rejeitam palavras
e na dobra das ruas
as línguas do chão desafiam
desafinam
e o comércio é interrompido pelo sinal do intervalo
por tambores sinos gongos
latidos de cachorro na madrugada
explosões nucleares no globo
pelo cadeado enferrujado
pelos pais adoecendo
pelos terroristas árabes
pela hidrofobia dos vizinhos
pelos toques da mulher amada
da mulher sem nome
que os consome
e veste
e calça
que homem não nasceu pra fungo
nem água
é coisa sem ponteiro ou entrada
é como o vento
é como um beijo
ou como o
abre-se uma boca do chão
e no fundo de uma fossa
séptica
os homens comungam
lírios coloridos
aparições
vaga-lumes cegos
fechaduras prenhas de réstias
e ali mesmo inauguram uma espécie de comércio
ancestral
vendem olhos e frescores
cores de sol e pólvora
vendem peles de azul
arranjos matemáticos
novas composições pro alfabeto
ou
emprestam atalhos para
o ventre da terra preta
da lama
na cama de merda que
ilumina
na extrato fera que
espreita e saliva entre silêncios guardados
/ no vão dos ouvidos
prometem terras e carneiros
banquetes de seios rosas e úteros
e vaginas molhadas feito terra
ardendo feito estrelas
no justo escambo por
verbos virgens
palavras verdes
argila tão mole quanto as paredes decoradas
de insetos negros e escorregadios
em que se apoiam com prazer e medo
mas os bueiros são entupidos
não escapam
os bueiros também rejeitam promessas
os bueiros também rejeitam plutônios
os bueiros também rejeitam palavras
e na dobra das ruas
as línguas do chão desafiam
desafinam
e o comércio é interrompido pelo sinal do intervalo
por tambores sinos gongos
latidos de cachorro na madrugada
explosões nucleares no globo
pelo cadeado enferrujado
pelos pais adoecendo
pelos terroristas árabes
pela hidrofobia dos vizinhos
pelos toques da mulher amada
da mulher sem nome
que os consome
e veste
e calça
que homem não nasceu pra fungo
nem água
é coisa sem ponteiro ou entrada
é como o vento
é como um beijo
ou como o
nada?
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