sexta-feira, 1 de março de 2013

vértebra zero - fragmentos de cidade

na esquina da cidade
abre-se uma boca do chão

e no fundo de uma fossa
séptica
os homens comungam
lírios coloridos
aparições
vaga-lumes cegos
fechaduras prenhas de réstias
e ali mesmo inauguram uma espécie de comércio
ancestral
              vendem olhos e frescores
              cores de sol e pólvora
              vendem peles de azul
              arranjos matemáticos
              novas composições pro alfabeto
ou
emprestam atalhos para
              o ventre da terra preta
              da lama
              na cama de merda que
              ilumina
              na extrato fera que
              espreita e saliva entre silêncios guardados
                                 / no vão dos ouvidos
prometem terras e carneiros
banquetes de seios rosas e úteros
e vaginas molhadas feito terra
ardendo feito estrelas
no justo escambo por
              verbos virgens
              palavras verdes
argila tão mole quanto as paredes decoradas
de insetos negros e escorregadios
em que se apoiam com prazer e medo

mas os bueiros são entupidos
não escapam
              os bueiros também rejeitam promessas
              os bueiros também rejeitam plutônios
              os bueiros também rejeitam palavras

e na dobra das ruas
as línguas do chão desafiam
desafinam
e o comércio é interrompido pelo sinal do intervalo
por tambores sinos gongos
latidos de cachorro na madrugada
explosões nucleares no globo
pelo cadeado enferrujado
pelos pais adoecendo
pelos terroristas árabes
pela hidrofobia dos vizinhos
pelos toques da mulher amada
da mulher sem nome
que os consome
e veste
e calça

que homem não nasceu pra fungo
nem água
é coisa sem ponteiro ou entrada
é como o vento
é como um beijo

ou como o
nada?

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