domingo, 8 de dezembro de 2013

Espero dos meus irmãos de tempo não menos que o extraordinário. Essa latência Raskolnikoviana, essa urgência profética de ser o que Vem no Hoje. Porque não. Não, Onneti, o extraordinário não se perde por mais que seja característica pouco democrática, é certo, mas o espanto é matéria explosiva e o que fazemos é tão somente correr o pavio. Lambidos de fogo. Restando no mundo em carvão e petróleo e lendas. Sendo, sendo, sendo até queimar. Até chegarmos no inevitável.
Saber a morte é a maior invenção do homem. É sua poética definitiva. Sua potência. Não há deus que não tenha nascido da morte. Nosso sagrado é essa constante de sermos corpos presentes carregados de tempos outros. Dentre eles o impossível de onde viemos e para onde vamos. Esse jogo hermético de brotar do acaso, no meio da vastidão dos corpos, pra sermos lançados na imensidão do não-corpo. Porque o fim do navegante não é a terra, mas aquilo que nele enferruja entre a superfície e o submerso. Essa dialética de visitarmos o inverso enquanto indivíduos presentes. O habitat. Realidade imediata de nome de cotidiano. Ou tempo. Solidão. Esse espaço de entendimento entre asnos e jegues que se olham perdidos no caminho. Exaustos. Mas se olham e se compreendem em sua ignorância.
E apesar de tudo o fogo segue premente. Ou mais. Arde mais, Onetti. O fogo nos consome a todos na inevitabilidade de sermos atores da língua, da formação da consciência, senhores de um pedaço amorfo de terra que ora se expande ora se contrai e que dia mais, dia menos, ruirá. E ainda assim erguemos castelos de gelo!
Não me interessam os homens que se separam entre joio e trigo. Esses sim, Onetti, não estão preparados para a explosão final, pras toneladas de hiroshimas que carregamos no peito e nos lábios. Mas não meus irmãos de tempo. Eles redescobriram o fogo. Elas. Queimam-se agora como coquetéis molotov à espera da quebra, do espalhar-se em chamas. Já vivenciamos a morte. Chegou a hora de outra poética. Nossa missão é queimar a língua do mundo. Queimar a língua do mundo, Onetti!!

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