Espero dos meus irmãos de tempo não menos que o extraordinário.
Essa latência Raskolnikoviana, essa urgência profética de ser o que Vem no Hoje.
Porque não. Não, Onneti, o extraordinário não se perde por mais que seja característica
pouco democrática, é certo, mas o espanto é matéria explosiva e o que fazemos é
tão somente correr o pavio. Lambidos de fogo. Restando no mundo em carvão e
petróleo e lendas. Sendo, sendo, sendo até queimar. Até chegarmos no
inevitável.
Saber a morte é a maior invenção do homem. É sua poética definitiva.
Sua potência. Não há deus que não tenha nascido da morte. Nosso sagrado é essa
constante de sermos corpos presentes carregados de tempos outros. Dentre eles o
impossível de onde viemos e para onde vamos. Esse jogo hermético de brotar do
acaso, no meio da vastidão dos corpos, pra sermos lançados na imensidão do não-corpo. Porque o fim do navegante não é a terra, mas aquilo que nele enferruja entre a superfície e o submerso. Essa dialética de visitarmos o
inverso enquanto indivíduos presentes. O habitat. Realidade imediata
de nome de cotidiano. Ou tempo. Solidão. Esse espaço de entendimento entre
asnos e jegues que se olham perdidos no caminho. Exaustos. Mas se olham e se
compreendem em sua ignorância.
E apesar de tudo o fogo segue premente. Ou mais. Arde mais,
Onetti. O fogo nos consome a todos na inevitabilidade de sermos atores da
língua, da formação da consciência, senhores de um pedaço amorfo de terra que
ora se expande ora se contrai e que dia mais, dia menos, ruirá. E ainda assim
erguemos castelos de gelo!
Não me interessam os homens que se separam entre joio e
trigo. Esses sim, Onetti, não estão preparados para a explosão final, pras
toneladas de hiroshimas que carregamos no peito e nos lábios. Mas não meus irmãos
de tempo. Eles redescobriram o fogo. Elas. Queimam-se agora como coquetéis
molotov à espera da quebra, do espalhar-se em chamas. Já vivenciamos a morte.
Chegou a hora de outra poética. Nossa missão é queimar a língua do mundo. Queimar
a língua do mundo, Onetti!!
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