vê esse canto de fenda?
esse escorrer de passagem
encerramento de abrigos e matadouros
percebe o sol pequeno, tímido?
a manhã que pondera se nasce ou passa
ou perde-se
entre dois filetes de candura e medo
que chamam boca
e é onde os cavalos trotam?
vê as ranhuras dos dedos?
as unhas guardando terrenos
territórios de outras gentes e
beijos pólvoras certidões de compra
e lendas
vê esse ensinamento de água?
cores de fantasmas e ventos
matéria de médiuns
ou loucos
ou
esse canto de casa
vê o tijolo caído?
enferrujando as rendas
e os cheiros de café e manteiga
vê o tempo sentado
curvado numa trincheira em guernica
ou nas favelas colombianas?
viu como balança as pernas?
viu os dentes amarelados
sem saliva nem brilho?
leu os labios rachados?
perguntam:
pra que esquentar gelo?
em quem planto meus pés?
quem há de comer tanto amor?
mas essa cabeça tombada
que lambe o mundo pra beirada da cama
essa medusa que entorta a luz
e cria flores
só cospe enigmas
vê?
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